"Ando para frente e não olho para trás"

Marco Aurélio Weissheimer
públicado no RS Urgente



Já se tornou uma máxima do discurso político pasteurizado e embalado por marqueteiros dizer que o negócio é seguir em frente e não olhar para trás. O pressuposto é que essa idéia seja do agrado do senso comum e da média dos eleitores, que teriam uma alergia crônica em relação ao passado e à memória. A candidata à prefeitura de Porto Alegre, Manuela D’Ávila (PCdoB), repete essa ladainha em entrevista hoje ao jornal Zero Hora. Indagada sobre a presença de aliados políticos do ex-governador Antônio Britto em sua chapa, a candidata afirmou: “Eu vivo em 2008, ando para frente e não olho para trás”. Foi mais longe e emendou: “Quando o PMDB governou o Estado (1995-1998) eu ainda não votava”.

É constrangedor ver esses "argumentos” serem proferidos por representantes de partidos de esquerda. O desprezo pelo passado e pela memória, diga-se a bem da verdade, é uma praga que viceja hoje em vários partidos (inclusive o PT). Em nome do pragmatismo eleitoral mais rastaquera, repete-se essa tolice como se fosse uma pérola de sabedoria. O que, afinal de contas, significa dizer, com orgulho: “eu não olho para trás”? Pior ainda, o que significa para alguém de esquerda dizer isso? Entre outras coisas, significa desprezo pela memória, pelo passado e pela história. Apresentar a idéia de “seguir na vida sem olhar para trás” como uma espécie de filosofia de vida e de regra de conduta política é algo muito menos inocente do pode parecer. Quem vive só olhando para frente e não olhando para trás não tem compromisso com a experiência e com a história, apenas com o próprio umbigo.

O PC do B pode justificar a aliança com o PPS em Porto Alegre com argumentos menos constrangedores. Basta dizer (como vem fazendo em alguns momentos) que o PT faz alianças com o mesmo partido em outros lugares. Não precisa jogar a memória na lata do lixo. Na verdade, é um argumento igualmente frágil, pois está baseado na idéia de que um erro justifica outro, mas, ao menos, revela alguma consideração pela história. O PT já cometeu muitos erros em sua história. Um deles foi namorar com a máxima que prega: “para derrotar o inimigo é preciso usar suas próprias armas”. O problema da aplicação desta máxima é que, quando se usa as mesmas táticas e práticas do inimigo, corre-se o sério risco de ficar parecido com o adversário. Essa história é bem conhecida. Seus resultados também.

Com todo o respeito que merece, Manuela D´Ávila poderia aplicar ao seu próprio discurso sua proposta de “Diálogo de Gerações”, que prega o respeito e a valorização da experiência e do passado como uma condição necessária para olhar o presente e o futuro.

A juventude e o discurso do fracasso político

Reproduzo abaixo um texto que recebi da companheira Ingird que achei muito bom e elucidativo sobre a suposta imagem de "juventude alienada" muito difundida nos diferentes meios. Recomendo a leitura.

Sou professora de ensino fundamental e médio, e confesso que trabalhar junto aos adolescentes este ano, me fez perceber o quanto o discurso niilista do fracasso político que o país passa, é reprodução do “mundo adulto”. Mas do “mundo adulto” daqueles que desacreditam em qualquer mudança da ordem injusta capitalista que está aí sendo imposta a nós desde que nascemos.

Trata-se deste mundo fácil de ser vendido nas conversas formais e informais, desde a filosofia do boteco até os debates nos centros acadêmicos, pois é bem mais fácil ser pessimista e jogar tudo para o alto. Difícil mesmo é fazer com que um adolescente, cheio de energia para revolucionar o mundo, não perca as esperanças, nem mesmo quando se tornar um “adulto de fato”.

Difícil mesmo, é ficar no lado oposto da maré capitalista que gera tanta desigualdade, que, de forma deplorável e positivista, ignora a história da sociedade numa onda avassaladora de reprodutores do senso comum.

Estou com 25 anos e não entrei para o “mundo dos adultos conservadores” . Preferi optar pelo “mundo dos adultos esperançosos”, que realmente são capazes de transformar a realidade que está posta, porém, não é pétrea e pode mudar. Os adolescentes com que trabalho, na sua grande maioria, demonstram a cada conversa e a cada debate, o quanto têm espírito de coletividade, e o quanto se importam com a vida em sociedade. Quase sempre o discurso de que nada presta ou nada adianta ser feito, quando parte de algum adolescente, é reproduzido tal qual algum adulto o orientou, mas não combina nem com o rosto do adolescente, que está ali, pronto pra acreditar em coisas, e não desacreditar em coisas.

Adultos, sejam parentes, vizinhos ou professores, um alerta: cuidado! Vocês podem estar decepando a esperança de um adolescente que cuidará desse mundo amanhã! Vale a pena a experiência de conversar sobre política com adolescentes. É encantador o interesse desses jovens por entender e participar mais do mundo em que vivem. O discurso universal que diz: ‘políticos são todos ladrões’ é muito comum... mas se passarmos de geração em geração este tipo de discurso, estaremos alimentando o quê mesmo? Que estar no cenário político é uma vergonha? Que os políticos são todos imorais? Ora, quanta bobagem! Já que estamos numa linha maniqueísta, vale lembrar que a sociedade tem diversos setores com bons e maus indivíduos.

Temos bons e maus políticos, bons e maus médicos, bons e maus professores, bons e maus cidadãos, bons e maus empresários, bons e maus juízes, bons e maus comerciantes, bons e maus policiais, enfim, é ingenuidade pensar que os políticos salvam ou destroem o mundo sozinhos.

É hora daqueles que remam contra essa maré ideológica da “mão invisível” do mercado, seja lá qual idade for, de não ter medo ou vergonha de estar do lado “humano da força”, ao invés de cada vez mais a política ser sinônimo de vergonha nacional. Bons, mostrem-se! Só assim tomarão os lugares dos maus... E para os adultos, uma sugestão: ouçam mais os adolescentes. .. eles têm muita cidadania a nos ensinar.

Ingrid Wink, socióloga e professora.

O invencível Capitalismo

Publicado no Blog do Kayser




No dia 16 de setembro de 2008 o Capitalismo mostrou mais uma vez que é invencível. Quando o poderoso Deus Mercado e a sua indefectível Auto-Regulação não deram conta do recado, quando a mítica Eficiência-Da-Iniciativa-Privada mais uma vez mostrou-se uma falácia, o Capitalismo lançou mão da sua mais poderosa arma secreta. Aquela que os neo-liberais fingem que não gostam, mas adoram: o Socialismo!


Mas não se trata de um socialismo qualquer, destes em que a ralé tem acesso à educação e à saúde. Estamos falando de um socialismo no qual quem tem muito dinheiro passa a ter acesso a... Muito dinheiro!
A coisa funciona assim: quando quebra uma empresa privada das grandonas, os adeptos do Estado-Mínimo pressionam o Estado - que eles tanto querem abolir - para que ele intervenha na economia – que eles tanto querem que seja livre de intervenções - e estatize a empresa privada. Tudo para que o infalível Deus Mercado possa permanecer infalível e eles possam continuar falando mal do Estado - que gasta mal e não tem a eficiência privada.
Assim, em um primeiro momento, socializa-se o prejuízo. Depois de algum tempo, quando a empresa, agora estatal, passar a dar lucros, os mesmos que pressionaram pela estatização dirão que o estado não tem que se meter em áreas que não são exclusivas suas. Por que o Estado tem que ser proprietário de uma empresa de seguros, se a iniciativa privada pode fazer isto de modo mais eficiente? Vamos privatizar! A preço de banana, é claro, porque o Deus Mercado não vai se dispor a pagar caro por algo estatal.
Passado mais algum tempo, um jornalista aparecerá em um telejornal e dirá que a empresa está dando muito lucro, suas ações estão em alta e esta é a prova de que as privatizações são uma maravilha. Um telespectador jovem ou de memória fraca concordará com o jornalista e pensará consigo mesmo: “É verdade! Agora eu até ganho um dinheirinho com as minhas ações desta empresa. Antes, quando era estatal, eu não ganhava nada”. Esquecido de que, antes de virar um acionista nano-micro-minúsculo-minoritário da empresa privada, ele e todos os seus compatriotas tiveram que comprá-la compulsoriamente, por um valor que ninguém pagaria por uma empresa falida, e depois a venderam por uma mixaria, apesar dos protestos de alguns baderneiros.

Agenda em defesa da UERGS


Os cursos de Arte da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS/Fundarte), de qualidade reconhecida nacionalmente, estão em situação precária devido a não realização de concurso vestibular há três anos. Se o governo Yeda Crusius (PSDB) não realizar o vestibular, os cursos se extinguirão. Para alertar a sociedade sobre esse risco, será realizado nesta segunda-feira (22), a partir das 16 horas, um Cortejo Político-Artístico. A concentração será em frente à Prefeitura de Porto Alegre, de onde o cortejo sairá em direção ao Palácio Piratini. Os organizadores do protesto convocam:


“Traje de performance (roupas pretas). Traga seus instrumentos, pernas-de-pau, malabaris, figurinos, adereços, tintas, pincéis e outros, para fazer barulho e despertar os mortos do palácio”.

Em Porto Alegre a esquerda vota Maria do Rosário

As eleições de Porto Alegre têm sabidamente uma grande importância para a disputa política em nosso estado e no país. Desde que o Partido dos Trabalhadores saiu-se vencedor no final dos anos 80, onde teve uma seqüência de quatro gestões vitoriosas que estabeleceram uma marca de referência de governos de esquerda, a muito que as forças conservadoras tentam sepultar este projeto transformador na capital gaúcha.
Em 2004 eles conseguiram interromper este processo ao eleger Fogaça como Prefeito. No entanto, foi uma derrota eleitoral e não uma derrota política. O PT seguiu com força na cidade e com capacidades reais de voltar a administrar a Prefeitura. A direita sempre esteve ciente disto e não vacilou no ano seguinte, quando estourou a crise do Zé Dirceu/Roberto Jefferson, e tentou vincular todo o PT no “mar de lama midiático” que assolou o país.
O que não logrou êxito. A maioria do povo gaúcho na eleição seguinte, para o Governo do Estado, soube reconhecer que a trajetória do PT do Rio Grande do Sul era diferente, que havia uma experiência positiva na inversão de prioridades e na construção de políticas que buscavam estabelecer uma outra lógica através da participação popular. E com esta marca e reconhecimento, o PT conseguiu eleger a maior bancada de Deputados na Assembléia Legislativa e foi para o segundo turno com Olívio, quando todas as pesquisas apontavam um distante terceiro lugar. Ainda que não tenha saído vencedor, o resultado político foi importante para fortalecer o partido após a maior crise de sua história.
O que tem se comprovado nesta eleição, onde esta força partidária aliada ao bom desempenho do Governo Lula, colocaram o PT como franco favorito em diversas importante cidades no interior do Estado. Este resultado se confirmando, deverá colocar o PT em uma posição nunca antes atingida em termos eleitorais no RS.
Mas Porto Alegre não segue este roteiro. E a preocupação maior da direita do estado é exatamente esta: não permitir um retorno do PT a Prefeitura. Para isso adotou de todos os expedientes possíveis: “blindagem” da mídia ao fraco governo Fogaça, manipulação de pesquisas, poder econômico, deslocamento de setores da esquerda para a centro-direita (aliança PCdoB/PPS) e etc.
A resposta do PT demorou a acontecer, mas ainda não é tarde de mais. Ainda estão colocadas as condições reais de a Prefeitura voltar a ter um governo transformador. Para isso, terá que recorrer aquilo que sempre diferenciou o PT de outras experiências partidárias: a força de sua militância. Ainda que não seja a mesma de outrora, ela permanece como uma reserva política fundamental para oxigenar uma campanha que iniciou de forma “morna e apática” e nos coloque em uma situação mais favorável.
A única candidatura com viabilidade de derrotar o projeto conservador na cidade, que não possui vínculos algum com esta atual administração e que pode de fato representar um projeto de esquerda em nossa cidade, devido a trajetória e acúmulo de gestão é a candidatura do PT. A chapa encabeçada pela Maria do Rosário e o Marcelo Danéris representam a verdadeira construção da esquerda em Porto Alegre. É mostrando a diferença dos projetos em disputa que poderemos sair vitoriosos.
Agora cabe ao conjunto daqueles que acreditam que um projeto transformador não só é possível como necessário se coloquem com toda a sua energia e garra para estabelecer a vitória do projeto de esquerda em Porto Alegre. Tempo e condições para isto existem, agora é a hora da chegada, e não podemos nos furtar deste desafio.

Humor


A geografia moral do senador Pedro Simon


"O senador Pedro Simon (PMDB-RS) é conhecido nacionalmente por sua cruzada contra a corrupção e pela defesa da moralidade pública. A retórica inflamada do senador gaúcho na tribuna do Senado é cantada em prosa e verso por seus correligionários, eleitores e admiradores.
Um estranho fenômeno, porém, atingiu o senador desde novembro de 2007, quando a Polícia Federal desencadeou a Operação Rodin no Rio Grande do Sul.
Com vários aliados acusados de integrar a quadrilha, Simon silenciou. Seguia fazendo seus discursos em Brasília, mas o Rio Grande do Sul foi riscado de sua geografia moral. "
Leia a íntegra do artigo do jornalista Marco Aurélio Weissheimer aqui

Emprego cresce, mas mulheres e negros continuam discriminados, diz ONU

Nos últimos anos, o Brasil apresentou melhora expressiva em indicadores importantes do mercado de trabalho, no entanto, o país não conseguiu diminuir, em níveis satisfatórios, a exclusão social e econômica, principalmente em relação às mulheres e aos negros.
Apesar de representarem mais de 70% do mercado de trabalho, mulheres e negros ainda são discriminados na área profissional. É o que aponta o relatório Emprego, Desenvolvimento Humano e Trabalho Decente – A Experiência Brasileira Recente, divulgado hoje (8) pela Organização das Nações Unidas (ONU). O estudo foi elaborado em conjunto por três agências da ONU: Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), Organização Internacional do Trabalho (OIT) e Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicíilios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), demonstra que, em 2006, o rendimento médio real das mulheres não-negras era de R$ 524,6, enquanto o das negras era de R$ 367,2. Já os homens negros receberam um rendimento médio de R$ 451,1, contra a remuneração de R$ 724,4 obtida pelos não-negros.“No início da década de 2000 observamos uma oferta maior de emprego, uma geração maior de trabalho com carteira assinada, além de uma reversão da queda dos rendimentos obtidos com o trabalho. Isso ocorreu em um cenário de crescimento econômico. No entanto, ainda há uma distância significativa em relação à remuneração, considerando os fatores de raça e gênero, e isso não condiz com a condição de trabalho decente”, explica o diretor do escritório no Brasil da Cepal, Renato Baumann.O aumento da presença das mulheres no mercado de trabalho – uma tendência que se verifica desde os anos 70 no Brasil – consolidou-se nos últimos anos. Segundo o relatório da ONU, esse aumento, intenso e persistente, da inserção feminina é uma das tendências mais claras de mudança na estrutura do mercado de trabalho nas últimas décadas, tanto no Brasil quanto em toda a América Latina.
Essa evolução ratifica uma tendência de mais longo prazo, de acordo com a ONU, e está associada, entre outros fatores como o aumento da escolaridade feminina, ao processo de transição demográfica que reduz o número de filhos por mulher, a uma maior expectativa feminina de autonomia econômica e realização pessoal e a uma maior necessidade, intenção ou disponibilidade de contribuir para a manutenção ou elevação da renda familiar.
Baumann destaca, no entanto, que os avanços, que ele chama de “áreas de luz”, não podem esconder as ainda existentes “áreas de sombra”, em relação ao mercado de trabalho no Brasil. “É inegável que houve aumento da participação de mulheres e negros. Também houve aumento da remuneração desses dois grupos, mas não a ponto de termos a eqüidade.”
O relatório aponta que "ainda é alta a desigualdade entre as taxas de participação das mulheres e dos homens, o que reflete as dificuldades que elas enfrentam, em especial as mais pobres e menos escolarizadas, para ingressar e permanecer no mercado de trabalho”.
“São as mulheres pobres que encontram maiores dificuldades para ingressar no mercado de trabalho, como conseqüência, entre outros fatores, dos obstáculos que enfrentam para compartilhar as responsabilidades domésticas, em particular o cuidado com os filhos”,
conclui o estudo.
Agência Brasil

Agenda

A Fundação Perseu Abramo e o Partido dos Trabalhadores/RS convidam para o lançamento do livro "Muitos caminhos, uma estrela: memórias de militantes do PT" no dia 9 de setembro, em Porto Alegre. Será as 19h, na Casa do Bancário.
O livro oferece um importante instrumento de reflexão sobre as origens e a trajetória de construção do PT, além de publicar uma rica biografia dos entrevistados, que constitui também um painel altamente representativo das transformações econômicas, sociais, políticas e culturais vividas pelo Brasil ao longo do século XX, particularmente na sua segunda metade.

Porto Alegre: Participação Popular esquecida

Durante uma campanha eleitoral, sempre se verifica uma maior disposição das pessoas em debater política, ainda que de forma difusa. Inegavelmente, estes momentos possibilitam um maior interesse pelos temas da sociedade, o que durante os períodos de “normalidade” dificilmente ocorre com a mesma intensidade.
Os motivos que levam a este “divórcio” entre a política e a sociedade são muitos, mas gostaria de destacar aqui um, que é a consolidação da idéia de que a “política é para políticos”. Tal discurso, que tem suas origens na própria concepção burguesa de democracia representativa, visa fortalecer um viés onde apenas “especialistas” devem conduzir determinados temas, e que por tanto, não deve ser algo apropriado por todos, mas apenas por aqueles que tem a “competência” para exercê-lo. Mal disfarçando a lógica elitista nesta concepção política, e que tem na grande mídia um potente reprodutor.
Porto Alegre vivenciou ao longo da década de 90 um importante questionamento desta lógica, através de experiências que demonstravam os limites desta forma de organização e a sua alternativa concreta através da democracia participativa.
Porto Alegre foi uma das cidades pioneiras nestas políticas, consolidando uma prática que venho a servir de exemplo a inúmeras experiências de sucesso em todo o país. Não foi apenas o compromisso da Prefeitura em executar as obras demandadas diretamente pela população no Orçamento Participativo que garantiram o seu sucesso, foi, além disso, a construção de uma nova cultura política na cidade que deu força a essa idéia, através do estimulo ao protagonismo e a participação. Ampliando a cidadania de uma forma superior, o que ajuda a explicar como o Partido dos Trabalhadores conseguiu construir 16 anos de administração êxitosa na capital gaúcha.
Hoje, após quatro anos da Prefeitura administrada pela direita, somada a duas gestões conservadoras consecutivas no Governo Estadual, vemos que a cidadania está colocada em xeque. Enganaram-se aqueles que acreditam que a participação se resumiria apenas a manter as assembléias do OP em funcionamento. Está provado que uma política que realmente busque tornar os cidadãos sujeitos deve ter um real comprometimento, não se resumindo a mera formalidade de instrumentos que foram esvaziados pelo atual poder público.
A atual administração da Prefeitura além de não executar as obras demandadas, ao não estimular, manter ou criar outros espaços de participação (conferências, congressos temáticos, etc.) deixa a cidadania em uma difícil situação.
Estas eleições podem ser um momento singular para que se recoloque a nossa cidade no caminho da participação. E esta deve ser encarada como uma prioridade por parte daqueles que acreditam que “um outro mundo é possível”. Já esta provado que, sem uma radicalização nas práticas democráticas, se propicia um terreno fértil para toda a sorte de manipulações e concessões para aqueles que defendem o “status quo”.
O motor de verdadeiras mudanças, não as mostradas nas peças publicitárias em campanhas, mas sim aquelas que realmente trazem alguma melhoria para a vida das pessoas, só se torna possível através de uma participação ativa das pessoas, tornando aqueles que eram objeto em senhores de seus próprios destinos.
Infelizmente, este é um tema que tem pouco aparecido no debate político desta eleição em Porto Alegre. Na verdade, debate político é algo que se vê muito pouco neste ano, onde a superficialidade tem ditado o tom desta campanha. Participação e cidadania é algo que não interessa aqueles que querem que as coisas sigam exatamente como estão e se a esquerda não se atentar, é o que vai ocorrer: tudo vai ficar como está, ou pior.

Pós-neoliberalismo na América Latina

Emir Sader

A luta contra o neoliberalismo já tem história na América Latina. No mesmo ano, 1994, em que os EUA, o Canadá e o México assinavam o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e FHC ganhava as eleições no Brasil, os zapatistas faziam sua rebelião em Chiapas e lançavam um grito pela luta contra o neoliberalismo, a economia mexicana sofria a primeira crise do novo modelo, tendo que ser imediatamente atendida por um empréstimo gigante por parte de Washington. Já se podia ver que o novo modelo tinha fôlego curto.

Quatro anos depois, Hugo Chávez era eleito presidente da Venezuela, prometendo combater o modelo dominante, em Seattle explodiria um ano depois a rebelião popular contra a OMC e dois anos mais se organizaria o primeiro Fórum Social Mundial. A série de eleições de presidentes latino-americanos eleitos como rejeição dos governos ortodoxamente neoliberais - casos de Menem, FHC, Lacalle, Sanchez de Losada, Lucio Gutierrez, entre outros - mudou a fisionomia política da região, gerando a maior quantidade simultânea de presidentes progressistas que o continente havia conhecido.

Processos novos de integração surgiram e antigos foram retomadas e ampliados, gerando o único espaço mundial de integração relativamente autônomo em relação aos EUA, enquanto governos davam passos claros de construção de modelos pos-neoliberais e outros flexibilizavam o modelo herdado.

Pega de surpresa pela tônica nas políticas sociais - vítimas privilegiadas dos governos neoliberais - que os novos líderes acenavam, a direita passou à defensiva. Órfã de um poder imperial, carente de políticas para o continente, retrocedeu para reagrupar-se na defesa de seus espaços estratégicos. Defesa da imprensa privada como seu espaço estratégico, porque dali poderiam dirigir política e ideologicamente as forças opositoras, bancos centrais independentes, defesa contra reforma agrária que afeta o poder sobre a terra, luta contra políticas tributárias que recortem seus lucros com ações redistributivas, resistência contra qualquer forma de regulação estatal, contra qualquer forma de fortalecimento do Estado - tais pontos passaram a ser a plataforma da direita, uma plataforma basicamente defensiva das imensas conquistas que havia logrado com os governos neoliberais.

Como não constitui um projeto alternativo de governo - a campanha de Alckmin demonstrou como sua proposta é de restauração da ortodoxia neoliberal apenas -, não aparece como inovação, apenas tenta bloquear a capacidade de governar dos presidentes atuais e diminuir os efeitos altamente populares das políticas sociais.

Depois da derrota de Chávez no referendo de novembro passado, e da derrota de Cristina Kirchner na tentativa de elevar os impostos sobre exportação agrícola neste ano, o triunfo espetacular de Evo Morales no referendo boliviano, a vitória eleitoral de Fernando Lugo, a perspectiva de triunfo de Maurício Funes, da Frente Farabundo Marti nas eleições presidenciais de março em El Salvador, o apoio popular acima de 70% de Lula, os avanços da nova constituinte no Equador, com perspectivas de alta aprovação no referendo popular, abrem nova etapa na luta contra o neoliberalismo no continente.

Essa luta dependerá de que os governos atuais consigam eleger seus sucessores, mas, principalmente, que dêem passos efetivos para sair do modelo neoliberal - promovendo a prioridade do social contra a do ajuste financeiro - e consolidando os avanços dos processos de integração continental. Disso depende o futuro do continente ao longo de toda a primeira metade do novo século - um futuro pós-neoliberal, baseado na solidariedade e no humanismo, superando as políticas fundadas no dinheiro, nas armas e no monopólio da palavra.


Artigo publicado originalmente no Correio Braziliense (01/09/2008)

Humor



Nesta eleição, temos tido a sensação corriqueira de que vemos um verdadeiro desfile de candidatos/as muito parecidos. É a vitória do marketing sobre o que realmente deveria interessar numa eleição, que é o programa político ao qual os candidatos defendem.
O cartum do Kayser, de forma bem humorada, ilustra muito bem esta total homogeinização da forma dos candidatos nestas eleições. Basta clicar na imagem para melhor visualizar.

Acesso à internet pode ficar mais caro

O projeto de lei que tipifica e estabelece penalidades para os crimescometidos pela internet pode tornar mais caras as conexões à web edificultar projetos de inclusão digital. A opinião é de especialistasque participaram de debate nesta quarta-feira, 27, no CongressoInternacional Sociedade e Governo Eletrônico, segundo informações daAgência Brasil.
De acordo com Everton Rodrigues, um dos coordenadores do projeto CasaBrasil, de inclusão digital do governo, o projeto de lei prevê que osprovedores devem guardar os dados sobre os acessos durante três anos eencaminhá-los à Justiça quando solicitados.A estrutura necessária para cumprir a determinação deverá encarecer aconectividade e também criar um monopólio dos grandes provedores,opinou.O projeto, aprovado no Senado no dia 9, teve como relatores naComissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática osenador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e o senador Aloizio Mercadante(PT-SP) na Comissão de Assuntos Econômicos.O projeto de lei cria 13 categorias criminais e endurece a pena parainfrações já existentes. Como, no entanto, os senadores fizeramalterações, ele terá de ser apreciado novamente pela Câmara.

Humor

Autor: Santiago

A "crise" da Veja e do Gilmar Mendes

Recebi hoje por e-mail este artigo extremamente elucidativo, publicado na seção de opinião do Jornal "Folha de São Paulo", a respeito da suposta "crise instituicional" que tem sido vinculada pela grande mídia, a partir da matéria publicada pela Veja, envolvendo grampos no STF. Se por um acaso, você que esta lendo não está por dentro da "grande crise" que envolve a nossa república, recomendo antes a leitura do artigo do Alberto Dines, do Observatório da Imprensa, que você pode acessar aqui.

Muito além dos grampos


Fernando Barros e Silva


Eu desconfio muito dos veementes, dizia Nelson Rodrigues, ele próprio o mais hiperbólico dos nossos escritores, a quem nunca faltou, como tempero da vocação trágica, o veneno da ironia. E como toda unanimidade não é apenas burra mas sobretudo perigosa, desconfiemos dos veementes.

No caso, dos que estufam o peito para nos alertar que o Estado de Direito está sob ameaça, o que tem ocorrido sempre que alguém da turma da cobertura vai preso.Quantos condenados existem hoje no país que já cumpriram sentença, mas seguem em cana? Alguns milhares. E quantos mofam no xilindró à espera de julgamento, em prisão temporária ou preventiva? Estima-se que 30% da população carcerária, algo como 150 mil pessoas. Quem se escandaliza?

Nem todos têm a mesma opportunity perante o STF. Foi preciso que os arbítrios da polícia chegassem ao topo do edifício social para que os arautos da legalidade começassem a se movimentar, veementes, indignados. Em pulso de preto, algema nunca foi abuso, mas pulseira de luxo. Está certo Joaquim Barbosa quando diz que certa elite monopoliza a agenda do Supremo.

Sim, é grave, é gravíssimo o grampo contra Gilmar Mendes. E também muito estranho: é a primeira vez que a revelação do conteúdo de uma escuta telefônica ilegal é boa para os dois grampeados.

Muito se falará ainda desse caso. Por ora, há coisas nebulosas e muitos interesses em jogo a serem esclarecidos. A Abin terá de se explicar. É provável que rolem cabeças.

Sobre o delegado Protógenes e seus métodos, vale repetir: o inquérito que comandou é obtuso, leviano e flerta com a delinqüência em várias das suas conclusões.Tenhamos isso sempre em mente. Mas sem permitir que, em nome da boa causa contra as ilegalidades da polícia, os veementes invoquem uma hipotética ameaça institucional para preservar privilégios e perpetuar a impunidade de uma casta que vive zombeteira acima da lei, como é óbvio ululante há 500 anos.

As "realizações" do Fogaça

Conduto Álvaro Chaves, caminho dos parques, Orçamento Participativo, Terceira Perimetral. Não, vocês não estão lendo algumas das ações da Frente Popular na administração da Prefeitura de Porto Alegre, mas sim as principais ações do candidato Prefeito Fogaça em seu programa eleitoral.

Ele até que tem tentado mostrar que fez algo, mas quando começa a listar as suas ações, fica evidente a total falta de iniciativa de uma gestão que ficou marcada pela apatia e pela apropriação privada do espaço público.

Escândalos, ainda que recebendo uma generosa blindagem da mídia, ocorreram ao longo de todo o mandato. Apenas para ajudar os mais esquecidos, lembremos das situações mal resolvidas na saúde, na coleta de lixo, na Fasc, na secretaria de juventude e etc. Nas enumeras concessões feitas a setores que haviam lhe apoiado na eleição anterior que culminaram nas mudanças no Plano Diretor e por aí vai.

Os marketeiros trataram de buscar dar uma imagem de retidão e trabalho a um candidato que até o momento não disse a que venho. Com o slogan “ele faz primeiro e fala depois” fica-se com a nítida impressão de que, o pouco que ele fez, foi feito visando as eleições e nada mais. A marca do eleitoralismo mal consegue ser disfarçada.

Afinal, por que apenas agora ele vem a público mostrar as suas realizações? E se tanto fez, qual a razão da maior parte destas serem oriundas da gestão anterior? Estas e outras perguntas que não querem calar ficam colocadas no ar. Esperamos apenas que a nossa cidade não tenha que ficar mais quatro anos vendo a sua administração municipal virar “fumaça”.