Art Spiegelman coloca obra-prima dos quadrinhos em museu de Paris e vem ao Brasil


Só quando Art Spiegelman botar os pés no Brasil, no final do maio, é que seus fãs e apreciadores vão poder respirar tranquilos. O cartunista de 61 anos já desmarcou viagem ao país duas vezes, mas garantiu, recentemente, que fará parte do 4° edição do Congresso Cult Internacional de Jornalismo Cultural, realizado em São Paulo entre 28 e 31 de maio. No site da Revista Cult, que promove o evento, o nome do cultuado autor norte-americano é confirmado entre os palestrantes.
Enquanto isso, o centro cultural francês, Pompidou exibe em sua biblioteca a mostra "CO-MIX", uma retrospectiva da obra do autor. Expostos nas paredes e em ordem cronólogica ou temática, todos os seus trabalhos podem ser vistos como obras de arte. Ao final, uma sala com poltronas e uma estante lotada convidam os visitantes a ler os livros e a revistas em que Spiegelman já escreveu ou desenhou. É programa para um dia inteiro.
Art Spiegelman não se diz um homem político, mas carrega alguns pontos fortes no seu histórico. Um deles é o livro "À Sombra das Torres", de 2004, onde imprime sua visão sobre os ataques em Nova York, no dia 11 de setembro de 2011 - tragédia que viu  ao vivo enquanto andava pelo bairro, onde sua filha também estudava. Na obra, a angústia do autor é tomada rapidamente por uma raiva em relação ao governo americano. É dele e de sua esposa, Françoise Mouly, a capa da revista New Yorker em que a silhueta preta das torres gêmeas se sobrepõem em um fundo negro.
No entanto, lendária é a capa de 1992, a primeira colaboração do cartunista para a revista americana. Foi com uma ilustração de um judeu apaixonado por uma negra que ele retratou a tensão e todos os acontecimentos de Crown Heights, no Brooklyn, transformando as próximas capas da publicação em uma espécie de vitrine. A partir dali, toda imagem tinha a responsabilidade de surpreender o leitor.

Entre arte gráfica, quadrinhos, livros infantis e embalagens para uma marca de chiclete, criadas no início da carreira, em 1966, a retrospectiva do cartunista é uma aula sobre seu trabalho, seu modo de pensar. Todas as fases estão ali, inclusive "Breakdowns", de 1977, um álbum em grande formato que traduz como um artista de quadrinhos costuma planejar as páginas, através de um estudo analítico ou um colapso mental.
"Raw", consolidada como uma revista de vanguarda - pós anos 1970 - é outro destaque da exposição. Textos e diferentes colagens estão expostos nas paredes, sob o título de uma publicação que mudou o cenário dos quadrinhos para sempre. Ainda hoje, a revista é parte de um manifesto dos cartunistas, um ponto de encontro entre autores americanos, europeus e japoneses, um modelo que os melhores representantes do gênero defendem: arte feita de narrativa e estilo gráfico impecáveis.
Maus, a maior obra de sua vida
Como era de esperar, a obra-prima tem uma sala só para ela. A série "Maus", na qual ele narra a experiência de seu pai, prisioneiro no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra, pode ser lida como uma obra de arte, quadro a quadro pendurado na parede.
Tudo começou em 1972, quando Spiegelman fez uma tirinha de três páginas com gatos e ratos para contar as experiências de seu pai na Europa de Hitler. A obra foi publicada numa revista alternativa da época, chamada "Funny Animals". Em 1978, o cartunista decidiu que queria um livro inteiro sobre o assunto. Fez várias entrevistas com seu pai e passou 13 anos recolhendo e pensando nessa obra, até que conseguiu torná-la em um clássico moderno do gênero.
"Maus", cuja palavra significa rato em alemão, tornou-se um sucesso mundial e foi traduzido em mais de 30 idiomas (no Brasil, foi publicado pela Cia. Das Letras). O livro rendeu ao autor um prêmio Pulitzer, em 1992, e uma declaração de Umberto Eco, que costuma ser sempre citada: "Um livro que você não pode deixar de lado, mesmo quando você dorme."

Fonte: Opera Mundi
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