A forma "partido" estaria superada para a esquerda?


Por Erick da Silva

Uma ideia tem ganhado relativa força junto a setores críticos e de esquerda - principalmente após os protestos de junho - que chama a atenção: que a forma de organização em "partidos" estaria superada historicamente. No entanto, fica uma questão colocada: até que ponto esta opinião é valida e expressa uma real mudança na conjuntura política brasileira?



Alguns chegam a avançar a crítica para além dos partidos de esquerda, mas miram a crítica também para os sindicatos - que para alguns destes perderam a razão de existir já nos anos 90 - assim como outros movimentos sociais tidos como "velhos". Estes não seriam mais o espaço de atuação para os revolucionários e aqueles que querem "mudar o mundo". Ainda que não exista acordo entre eles sobre o que, como e para onde mudar.

O problema destas avaliações é que, em geral, manifestam muito mais angustias pessoais do que uma tentativa de analise da realidade. Desconsideram o conjunto de atores que atuam na conjuntura, para além de seu raio de percepção imediato e, por tanto, caem no erro de não observar os recuos e movimentos contraditórios que atuam simultaneamente.

Se é verdade que na sociedade vemos crescer movimentos espontâneos, organizados em rede e com uma crítica "contra tudo que esta aí", que em geral possuem "tintas de esquerda", é também esta mesma sociedade que registra um crescimento inquestionável de movimentos obscurantistas, de cunho autoritário e conservador. Figuras como Marcos Feliciano e Silas Malafaia estão aí para que ninguém tenha dúvida.

Não podemos negar que os erros dos partidos esquerda (e do PT em particular) colaboram para disseminar um certo descrédito quanto as possibilidades de mudanças profundas na sociedade a partir do espaço partidário. O sistema político brasileiro, profundamente permeado de problemas e estruturado para pasteurizar e corromper, é inequivocamente causador principal destas contradições, mas não o único. O pragmatismo, a ausência de projetos políticos de médio e longo prazo, são apenas alguns elementos que compõe um já bem conhecido roteiro de "desencanto da esquerda".

Mas falta apontar aqui outro elemento, caro a análise política desde Marx, que é o componente de classe. As distintas demandas e carências materiais são condicionantes para uma diferenciação da percepção de mundo imediata. Condiciona muitas das aspirações e dos anseios de mudança. A noção de "tomada de consciência de classe" - a despeito daqueles que acreditam não existir mais classes - é um processo corrente, por vezes contraditório e mutável ao longo do tempo. Isto ajuda a explicar o caráter imediatista e muitas vezes contraditório destas "vozes que protestam" e que rejeitam aos partidos.

Não tem sido raro que surgem demandas reivindicatórias e de grande mobilização na rede - e por vezes refletindo nas ruas - que, após alguns dias ou semanas, simplesmente desaparecem e perdem o apelo. O imediatismo e a inconstância tem sido uma característica desta forma "apartidária" e contraria as movimentos sociais "tradicionais".

Os partidos, em sua forma moderna, tem a sua origem ligada ao nascimento dos movimentos republicanos  e anti-monárquicos na Europa. A construção de partidos operários, socialistas, comunistas e etc, é fruto de muitas décadas de lutas dos setores populares pelo direito de participação política, que historicamente esteva restrita a elite (aristocrática ou econômica).

No entanto, ao longo do século XX, principalmente na Europa (mas não somente), esta participação política foi restringindo-se apenas ao ato de votar, a assimilação de parte desta esquerda ao sistema, passando muitas vezes a repetir o receituário neoliberal,  somada a uma gama de outros fatores específicos, o "desencanto da esquerda" na Europa se assemelha, pelo menos no campo discursivo, a este fenômeno que observamos localmente.

A falta de alternativas de mudança do sistema, a partir dos canais institucionais liberais, a quase inexistência de mecanismos de democracia direta, contrastam com a demanda por mais participação e voz. A crítica aos partidos, em alguma, também deriva desta crítica. No entanto, ela limita-se a uma "não aceitação" e, pela ausência de uma consistência política maior, estes movimentos acabam tendo pouca capacidade de provocar transformações no sistema.

Se a mimetização local destes "novíssimos movimentos" podem ser assim entendidos, o exemplo europeu é de grande valia: por lá, a perda de legitimidade e força da esquerda tradicional, gerou não uma nova síntese de movimentos espontâneos capaz de provocar mudanças. O que ocorre é justamente o oposto: o fortalecimento de setores conservadores e de grupos de extrema-direita que tem, sem vacilo, solapado o que resta do estado de bem-estar social e imposto duras derrotas as camadas populares. O caso espanhol é bastante exemplar neste sentido.

Podemos afirmar, sem medo de errar que a organização da esquerda em partidos segue atual. Apesar das contradições, insuficiências quanto a estratégia política e seus demais limites, a organização da esquerda através de partidos, neste sistema político vigente, seguirá necessária. No atual período histórico, de crise do capitalismo no norte global, a necessidade de acumular forças e buscar estratégias de avanço para a esquerda, é uma tarefa histórica. A direita e os setores mais conservadores da sociedade não vacilam quanto isto e não se furtarão em promover recuos e perdas de direitos ainda maiores para a sociedade. Quanto a isto, a história é farta de exemplos.

Seria de grande valia promover um esforço de síntese e de aproximação das reivindicações e das formas de luta entre os diferentes setores da esquerda brasileira, respeitando as diferenças, para que de fato possamos superar o falido modelo democrático liberal. Superar as atuais contradições e bloqueios entre as partes é difícil, mas necessário, pois os setores reacionários jamais vacilaram quanto a quem são seus adversários. Nós da esquerda conseguiremos?
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5 comentários:

Antonio Datsch disse...

Questionável quanto aos partidos mas aplicável no sindicalismo, pior que um sindicato inútil é um sindicato pelego.

Anônimo disse...

bom texto, desafios que cabe a nós formularmos

m filho disse...

No Brasil os partidos sem exceção,são todos um balaio de gatos.

Yacov disse...

Os que vilanizam os partidos políticos e a política de uma forma geral são como pais relapsos que nunca frequentaram as reuniões de país e mestres e jogam a culpa pelos desvios de seus filhos em professores mal pagos e escolas abandonadas. Esse é um discurso diversionista de uma elitezinha rolabosta cooptada pelo poder econômico. O que o Brasil precisa é de uma ampla reforma política-eleitoral que consolide questões como fidelidade partidária, financiamento público de campanha e voto em lista. O Resto é trololó e de TUCANO PERDEDOR SEM VOTO !!!!

ANOS tuKKKânus LEWINSKYânus NUNCA MAIS !!! NO PASSARÁN !! VIVA GENOÍNO !! VIVA ZÈ DIRCEU !! VIVA A LIBERDADE, A DEMOCRACIA E A LEGALIDADE !! VIVA LULA !! VIVA DILMA !! VIVA O PT !! VIVA O BRASIL SOBERANO !! LIBERDADE PARA JULIAN ASSANGE, BRADLEY MANNING E EDWARD SNOWDEN JÁ !! FORA YOANI e MÉDICOS COXINHAS !! ABAIXO A DITADURA DO STF DE 4 PARA A GLOBO !! ABAIXO A GRANDE MÍDIA CORPORATIVA, SEU DEUS 'MERCADO', LACAIOS & ASSECLAS !! CPI DA PRIVATARIA TUCANA, JÁ !! LEI DE MÍDIAS, JÁ !! "O BRASIL PARA TODOS não passa no SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO - O que passa SISTEMA gloBBBo de SONEGAÇÃO é um braZil-Zil-Zil para TOLOS"

(SOCIO)LOGANDO EM BELÉM disse...

Concordo em parte com o comentário anterior em relação a questão de nossa responsabilidade na construção de uma sociedade democrática. Aliás, você já viu em algum lugar democracia sem partidos? Sim eu disse partidos, não siglas de aluguel para eleger figuras como Tiririca. O autor do texto deixa os leitores alienados e despreparados, acreditando que realmente há algum culpado e não quem vota. Nós que votamos nesses asseclas que ai está é que somos responsáveis pelo que ocorre no Brasil, seja quando elegemos os fichas sujas, os salvadores da pátria, os populistas, os aproveitadores do dinheiro publico. Então senhores, o articulista esta completamente equivocado. Partido não é invenção de esquerda, mas daqueles que lutaram perderam a vida para construção de um Estado de Direitos. Não um estado para a direita, desculpem o trocadilho. Se os ricos ou apaniguados não são presos como manda o direito penal, é porque a justiça não é tão cega assim. Sindicato está fora de moda porque foram cooptados, independente dos partidos no poder. Senão vejamos, no governo FHHH os movimentos sociais desapareceram de cena, e ninguém foi as ruas reclamar isso, passamos 8 ANOS sem reajuste de salário, não tivemos sequer uma casa construída, não asfaltou a TRANSAMAZONICA, não se fez reforma partidária, os professores nunca ganharam tão mal, apesar do professores não construiu um faculdade ou instituto tecnológico, não incentivou a pos graduação em que pese ter estudado nas melhores universidades do mundo, fez uma reforma de ensino e não melhorou a qualidade do ensino apesar do presidente e ministro da educação serem professores.
Então meu caro, precisamos é rever uma serie de conceitos e práticas políticas, condenar o desperdício de dinheiro público com propaganda, independente da gestão se federal, estadual ou municipal. Afinal estes senhores e senhoras foram eleitos e são pagos pra isso. Fora artigos alienados e alienantes.
Acerca do capitalismo, qual crise, não vejo isso, O CAPITAL NÃO PERDEU A POSE, O LIBERALISMO CONTINUA AI. A MEU VER O QUE TEMOS É TALVEZ A DIMINUIÇÃO DO LUCRO SE É QUE ISSO ESTÁ OCORRENDO. Onde esta a novidade nos movimentos de rua atuais, pra mim é um retrocesso, o imediatismo inconstância e apartidarismo? Não vejo nenhum movimento anti-capitalista. Será que quebrar prédios públicos, construídos com o dinheiro do contribuinte, incendiar ônibus, pular roleta é movimento social responsável. Pra mim é falta de projeto. Pra mim isso é sintoma de autoritarismo de extrema direita apesar de dizerem que isso não existe mais. O que está em jogo, não é se os partidos não mais representam o ideal revolucionario o que fazer. Não é o PT QUE ENVERGONHA, MAS TODAS AS PESSOAS QUE OS REPRESENTAM, SEJA DE QUAISQUER PARTIDOS. Fala-se contra os partidos, mas se aceita assessoramento e advogados, e dinheiros dos partidos. Esses movimentos têm é que tomar vergonha de quere acabar com a democracia, querem o que, nazismo, ditadura. Se os partidos ou agremiações que estão ai não servem não votemos neles. Alias brasileiro não vota em partido, que é um problema, vota em pessoas que prometem coisas e não por suas propostas e princípios. Votemos em partidos já e abandonemos o “jeitinho” que tem levado a corrupção e “lei de gerson”.