Black blocs: paradoxos e imposturas intelectuais


O fenômeno envolvendo os chamados “black blocs” traz consigo alguns paradoxos que vem expondo imposturas intelectuais perigosas para a democracia. Cabe, aqui, qualificar bem em que sentido está sendo usada a palavra “impostura”. É em seu sentido mais literal mesmo: ação de enganar com falsas aparências ou falsas imputações. Pois não faltam falsas aparências e falsas imputações neste debate, se é que pode ser chamado assim. A primeira delas é que há muito sendo dito sobre os “black blocs”, mas a maior parte é por terceiros, ou seja, por pessoas que não reivindicam fazer parte desse…grupo, movimento…(??). Uma frase repete-se com frequência nestas falas: eu sou contra sair quebrando tudo, mas…A tolerância expressa na adversativa mal consegue disfarçar a frouxidão com que é tratada a primeira parte da frase: por que é mesmo que você é contra sair quebrando tudo?

Quebrando McDonald’s, Itaú, Banco do Brasil, Banrisul, lixeiras, museus, prédios particulares, carros, seja lá o que for. A lista é ecumênica. Aos olhos de alguns e de algumas, tudo isso é resultado desse “sistema que está aí e que não nos representa, Basta! A rebeldia nas ruas é a resposta à impunidade, à violência policial e à podridão da política”. As conversas vão por aí. Mas não há vozes black blocs propriamente, pois a sua voz se expressa na quebradeira e no enfrentamento com a polícia. As vozes black blocs são terceirizadas e os terceirizados se restringem ao plano discursivo. As falsas aparências e as falsas imputações andam de mãos dadas e tem em seu horizonte a irresponsabilidade política.
Irresponsabilidade aí, tomada no sentido literal da palavra também: não respondem por seus atos, pois eles não esperam uma resposta, uma vez que desqualificam completamente qualquer interlocutor político, já que essa esfera não representa nada. A ausência da representação é o ninho onde já foram chocados muitos ovos de serpentes. Os black blocs não topam se organizar, não há sequer um grupo identificado como tal. Suas vozes terceirizadas muitas vezes estão organizadas e usam as ações dos primeiros segundo suas conveniências.
As imposturas intelectuais e políticas envolvendo esse fenômeno atingiram um nível alarmante. Há mais representação numa lixeira instalada por uma prefeitura em uma calçada do que no ato estúpido de alguém que a arrebenta gratuitamente. Há mais democracia numa lâmpada que ilumina uma rua à noite do que no ato de quebrar um caixa eletrônico do Banco do Brasil. A instalação dessa lixeira tem uma longa história atrás dela. É a história da construção de algo chamado política pública, vida em comum, democracia. As instalações de um banco público também. Um vaso de um restaurante instalado em uma calçada, idem. Justificar ou relativizar esses atos estúpidos expressa uma mistura de desprezo e ignorância sobre o valor e os limites da democracia, que sempre é imperfeita.
A história da democracia no Brasil é recente e frágil. Parece haver uma cultura no país, à esquerda e à direita, que não hesita em abrir mão de dispositivos básicos da democracia em nome de uma indignação “contra tudo o que está aí” e “não nos representa”. Passou da hora de começar a dizer algumas coisas pelo nome: o discurso contra a representação é um discurso contra a democracia e a favor da violência e da anomia. Não há vida comum possível sem níveis e instâncias de representação e de hierarquia. Sem isso, estaríamos todos urrando no meio do mato, posição esta que parece exercer uma força de atração nostálgica para alguns.
A violência policial no Brasil não é apenas uma herança da ditadura. A violência está presente desde o batismo desse país. Violência e racismo. Violência contra os índios, contra os negros, contra os mestiços, contra os mais pobres, contra as mulheres. São séculos de violência semeada zelosamente no solo social e cultural de uma sociedade que ainda parece desconfiada da democracia. Desconfiada da democracia significa, entre outras coisas, desconfiada da política, do voto, dos partidos, dos parlamentos, das instituições. Há problemas? Muitos, vários. Mas há muitos avanços também. E o equilíbrio entre problemas e avanços só pode ser encarado, de um modo positivo para a democracia, por meio da política, da representação, do debate público, da recusa à terceirização da voz e da identidade.
A aposta na violência nas ruas que recusa a política e a representação é irmã gêmea da violência policial e institucional que marca a história do Brasil. Não é sua adversária, muito pelo contrário. È uma outra face dessa mesma violência perversa e ignorante que despreza a democracia. Não é à toa que quem se dispõe a sair na rua arrebentando uma lixeira, uma sinaleira, uma lâmpada, um carro ou a vidraça de um banco, não tem voz, recusa ter voz. E não é à toa também que quem pretende falar por estes que recusam ter voz, não os acompanham nas quebradeiras. Aí a impostura se abraça no oportunismo e compõe um pirão político-ideológico que nunca resultou em boa coisa.  Não há nenhuma rebeldia aí, só o velho conservadorismo brasileiro que está sempre disposto a sacrificar a democracia emprestando sua voz para aquilo que não quer ter voz alguma.
Há mais política e possibilidade de democracia em um candidato do PSTU à vereança de alguma cidade, em uma reunião do PTB em Marau ou em um militante sindical do PCO panfleteando em uma porta de fábrica do que em uma turba enlouquecida quebrando tudo pelas ruas, ávida pelo encontro com a polícia. O que este encontro busca e propicia é a morte e a destruição de qualquer possibilidade de algo que mereça ser chamado de democracia.
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Um comentário:

Anônimo disse...

Bom artigo
Não entendo as motivações desse movimento!