25 anos do assassinato de Chico Mendes


Por Erick da Silva

22 de dezembro de 1988, há 25 anos atrás, o seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes era assassinado por pistoleiros contratados para silenciar sua voz e dar cabo de sua luta, que atingia diretamente interesses de fazendeiros sedentos por aumentar os seus lucros e impedir que seus privilégios fossem interrompidos. Mataram o homem, não sua luta e seu legado.


O assassinato teve grande repercussão na época, a causa ambientalista ganhava terreno e Chico Mendes era um de seus grandes expoentes. Uma ampla mobilização - nacional e internacioal - que chegou a envolver mais de trinta entidades sindicais, religiosas, políticas, de direitos humanos e ambientalistas se juntaram para formar o "Comitê Chico Mendes". Em dezembro de 1990, a justiça brasileira condenou os fazendeiros Darly Alves da Silva e Darcy Alves Ferreira, responsáveis por sua morte, a 19 anos de prisão. 

Como que um líder seringueiro do Acre, de Xapuri, longe dos grandes centros urbanos do país, atingiu essa condição? Talvez, se observarmos a sua história de vida e luta, possa nos ajudar a entender os caminhos que o levaram a construir este legado.

Se a batalha contra o desmatamento fazia com que os ambientalistas vissem Chico Mendes com simpatia, seu empenho na organização dos trabalhadores rurais em Xapuri e depois em todo o Acre também atraía a admiração e o respeito de muitos sindicalistas e de pessoas ligadas à esquerda. Dentre eles, aquele que seria presidente da República pelo Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, que foi várias vezes a Xapuri apoiar o amigo. Chico foi sindicalista, articulador de alianças com movimentos sociais e entre os povos da floresta, além de ter dialogado diretamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e participado institucionalmente do cenário político como vereador emedebista em Xapuri e, mais tarde, como militante e candidato a vários cargos eletivos pelo PT. Em geral, empreendia sua luta por diversas vias paralelas, o que lhe garantia inserção em muitos nichos, alguns pouco explorados tanto por trabalhadores como pela própria classe política tradicional.(1)

Agora, passados 25 anos da morte de Chico Mendes, é inquestionável sua presença como uma das principais figuras do século XX no Brasil. Seu legado é hoje reconhecido, de maneira quase unânime, uma lei publicada esta semana no Diário Oficial da União, por exemplo, reconhece o trabalho de Chico Mendes na luta pela preservação da Floresta Amazônica. Ele agora é considerado Patrono do Meio Ambiente.

O reconhecimento do estado de seu legado é um justo reconhecimento. No entanto, 25 anos após sua morte, Chico Mendes passou a  ter sua imagem como um “mártir ecologista”, apagando sua dimensão como “militante político”. Esta despolitização da figura de Chico Mendes, expressa de maneira difusa, deve ser desfeita. "Não era apenas “verde”, como podem querer fazer crer hoje, sonhava um sonho muito maior."(2)

Quando de sua primeira participação como candidato a vereador, em 1977, Chico procurou o único partido que, naquela época, fazia oposição à ditadura militar, o MDB. Em 1979, Chico Mendes já podia ser chamado de um “militante de esquerda”, pois sua atuação como vereador e liderança dos seringueiros era frontalmente contra os interesses dos grandes fazendeiros e dos políticos tradicionais da época .


Chico adere ao PT desde o princípio. Durante todos os seus anos de militância política, atuou não só como filiado a um partido, mas também como dirigente sindical. Foi fundador e primeiro-secretário do STR de Brasileia, depois fundador da CUT, de cuja direção nacional era suplente quando foi assassinado, presidente do STR de Xapuri e fundador do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS).(3)

Esta dimensão política de Chico Mendes, que soube ao mesmo tempo combinar a luta ambiental com um programa político, deve ser resgatado. Em um mundo onde a luta ambiental surge com maior urgência, face o avanço da degradação do meio ambiente no planeta, onde somente através de um movimento ambientalista que combine uma crítica ao próprio capitalismo terá sucesso, o legado de Chico Mendes é de grande valia. 

Nestes 25 anos de Chico Mendes, que todas e todos nós nos remetamos a uma tradição dos movimentos sociais no Brasil e na América Latina: a de relembrar seus mártires, sem permitir que suas lutas e legados caiam na vala comum do esquecimento.

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1 - "Chico Mendes, muito mais que um símbolo": por Cristina Uchôa e Glauco Faria (Revista Fórum)
2- Ibedem.
3 - "Chico Mendes" por Gomercindo Rodrigues (Revista Teoria & Debate, 80)

3 comentários:

Anônimo disse...

Belo Artigo!

Paulo Renato disse...

"Francisco Alves Mendes Filho era filho de migrantes cearenses, os arigós. Começou a trabalhar ainda criança acompanhando o pai pelos seringais do Acre. A partir de 1975, já sabendo ler e escrever, fugiu da vida dura dos seringais exercendo funções burocráticas nos sindicatos locais e articulando com os diversos movimentos sociais que se estabeleciam à época.

Nos anos 80, com o esgotamento da luta contra a caça as baleias no Japão, as ONGs precisavam de uma outra bandeira. Agitar a luta pelas baleias era fácil com as imagens do bichinho sendo caçado e sangrando a pauladas.

Floresta era outra coisa. Era difícil convencer as pessoas a financiaram a luta pela florestal, ainda tão vastas. As ONGs entenderam que precisavam de um mártir.

Passaram a levar Chico Mendes para todos os eventos internacionais que pudessem imaginar. ONU, festas filantrópicas em Washington, etc. Depois que ele ficou internacionalmente conhecido, criaram uma disputa entre Chico e um dos maiores assassinos do Acre.

Não deu outra. Fabricaram seu mártir. Desde então as ONGs tem gigolado incessantemente o cadáver de Chico Mendes.

É nesse contexto que se insere a iniciativa do Greenpeace."

Anônimo disse...

Chico Mendes VIVE!!!!!