Europa e a máquina do tempo


Por Erick da Silva

Lendo alguns jornais da Europa, tive uma inusitada sensação. Pareceu por um momento que uma máquina do tempo havia me transportado de volta ao passado. Mais precisamente aos anos de 1990, quando as noticias da América Latina eram dominadas por temas como "ajuste fiscal", "pacote do FMI", "crescimento do desemprego", "queda no PIB" e etc. A diferença é que estas notícias, que outrora versavam sobre os países latino americanos, agora se referiam ao velho continente.


O mais curioso nesta viagem ao passado é que, transcorrido todos estes anos, apesar das manchetes e problemas europeus serem muito semelhantes aos enfrentados no passado pelo nosso continente, as soluções propostas são exatamente as mesmas que falharam por aqui. Soluções e "remédios" que já foram testados inúmeras vezes ao redor do mundo tendo sempre o mesmo resultado: o fracasso.

É notável a capacidade de fazerem crer que, algo que sempre deu errado podeira passar, milagrosamente, a funcionar. Além de não superar os problemas que afirmavam superar, muitas vezes produziam o efeito inverso: ampliavam a crise econômica e social, sem jamais atacar os verdadeiros causadores da crise. Tudo para não alterar o "humor dos mercados".

A crise econômica é muito mais profunda do que muitos analistas creem. Não será possível a sua superação seguindo os ditames do "Deus Mercado". A Europa deve avançar ao futuro e abandonar o "beco sem saída" em que está embretada.

A Europa, outrora o "farol das luzes" do pensamento ocidental, hoje é um pálido retrato do que já foi em outros tempos. Como bem definiu Álvaro Garcia Linera, vice-presidente da Bolívia durante encontro das esquerdas europeias, "ficou para trás, muito atrás, a Europa dos grandes universalismos que  moveram e enriqueceram o mundo, que empurraram povos de muitas partes do mundo a adquirir uma esperança e mobilizar-se em torno dessa esperança." O que sobrou em seu lugar, "a única Europa que vemos no mundo hoje é a Europa dos grandes consórcios empresariais, a Europa neoliberal, a Europa dos grandes negócios financeiros, a Europa dos mercados e não a Europa do trabalho. Carentes de grandes dilemas, horizontes e esperança, só se ouve – parafraseando Montesquieu – o lamentável ruído das pequenas ambições e dos grandes apetites."

Os tempos hoje são outros, a América Latina experimenta um caminho muito distinto daquele período de triste lembrança de hegemonia neoliberal. A superação daqueles impasses não foi através da repetição da velha cantilena da "austeridade dos mercados", mas através da busca de um caminho alternativo que, de diferentes maneiras, tem construído a superação da herança neoliberal.

Não tenho dúvida que muitas das alternativas civilizatórias para a humanidade estão sendo neste momento gestadas na América Latina. Não de maneira exclusiva e nem livre de contradições, mas é onde as possibilidades se fazem mais maduras.


Talvez essa seja uma maneira da Europa superar o seu atoleiro: buscar no sul as alternativas que o norte global não possui capacidade de construir. Veremos se a "máquina do tempo" européia consegue se ajustar, deixando de retroceder ao passado e avançando para um futuro que supere o neoliberalismo atualmente reinante. 
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