Polícia brasileira combate cultivo caseiro de maconha. Crime organizado agradece!


O Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), da Polícia Civil de Porto Alegre (RS), abriu investigação e quer processar por tráfico de drogas os organizadores da II Copa Growroom, um churrasco que reuniu cultivadores e ativistas da maconha na capital gaúcha em dezembro de 2013. 

O Growroom, fórum virtual com mais de dez anos de atuação e que reúne milhares de cultivadores, é um ambiente de redução de danos e troca de informações sobre a agricultura da maconha, consumo responsável e política de drogas. 

Lendo a nota do Growroom sobre o caso (acesse aqui: 
http://bit.ly/1bdQ3lN), surge a pergunta: será que a polícia brasileira não tem mesmo nada mais importante para fazer do que prender jardineiros de maconha?

Parece que não. 

O flagrante do helicóptero de políticos carregado de cocaína foi rapidamente arquivado e nenhum jornal fala sobre o assunto, mas as notícias sobre prisões de cultivadores de maconha, com alguns pés em casa, são frequentes. O perfil da ampla maioria desses cultivadores é parecido: jovens sem histórico de violência que escolheram plantar sua própria erva para controlar procedência e qualidade do que consomem. Assim, dispensam a maconha prensada trazida por organizações criminosas que controlam o produto proveniente do Paraguai - e que abastece cerca de 80% do mercado brasileiro. Os cultivadores também fecham a principal porta de entrada para drogas mais perigosas: o vínculo com o traficante. 

O problema, no caso, é que esses cultivadores vivem no Brasil.

Uma rápida busca sobre notícias relacionadas à legalização da maconha mostra que o país está pelo menos três décadas atrasado sobre o tema. As autoridades e agentes políticos brasileiros simplesmente continuam a ignorar as evidências científicas e medidas como as leis do Uruguai, dos 21 estados dos EUA que regularam a maconha medicinal, o boom de vendas do Colorado e os esforços bem sucedidos de descriminalização do consumo em mais de 25 países. 

Se qualquer policial envolvido no caso do Growroom tiver lido os jornais e portais deste domingo, por exemplo, vai saber que o presidente Barack Obama avançou uma casa no caminho da legalização nacional da maconha nos EUA ao reconhecer que a planta "não é mais perigosa do que o álcool" e que as iniciativas estaduais de regulação do consumo adulto no Colorado e em Washington são "importantes". De quebra, vai se surpreender ao ler que a indústria da maconha legalizada no Colorado já faturou USD 5 milhões em menos de 30 dias. 

A manchete pronta de Obama é mais uma na seqüência arrebatadora de notícias canábicas que vem transformando a narrativa desde meados de 2012. Outro destaque recente - e inesperado - foi a novidade que Turim, terceira maior cidade da careta Itália, legalizou a maconha em nível municipal no começo deste mês. A França, um dos países europeus mais fechados na discussão do tema, acaba de dar início a um tímido programa de maconha medicinal. Notícias assim são e serão cada vez mais comuns: estamos assistindo, em tempo real, os últimos suspiros do proibicionismo global da planta.

Exatamente por isso, ao invés de perder tempo e dinheiro público perseguindo cultivadores, condenando Amarildos e superlotando presídios com pretos e pobres envolvidos na base da pirâmide do tráfico, as autoridades da justiça criminal, da saúde pública, dos direitos humanos e da educação deveriam se dedicar a formatar uma política nacional para reduzir os danos sociais da proibição legalizando e regulando o autocultivo e a produção de maconha para consumo adulto e medicinal no Brasil. O ponto de partida deste processo inevitável é claro: dar urgência ao julgamento sobre a descriminalização do usuário de drogas que tramita no Supremo Tribunal Federal (RE 635659) desde o ano passado. 


O debate mundial sobre a legalização da maconha está mais aceso do que nunca. Quando o Brasil deixará esta postura atrasada e passara a encarar o tema de frente, sem preconceitos? 


Texto editado de Midia Ninja
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