A Copa e o paternalismo tosco da esquerda arcaica

Moradores da favela do Moinho comemoram a  vitória da seleção brasileira contra a Croácia Foto: Folhapress

Por José Antonio Lima

Não é de hoje que parte da esquerda brasileira vive uma realidade completamente diversa daquela experimentada pelo povo. A tentativa de lançar, contra a ditadura, uma revolução campesina no momento em que o País se urbanizava de forma frenética, entrou para a história como um erro grosseiro. Em 2014, ações deslocadas do mundo real persistem, e o alvo é a Copa do Mundo.

Nesta sexta-feira 13, a Folha de S.Paulo traz uma reportagem simples e genial, assinada por Patrícia Campos Mello. O texto mostra como, na favela do Moinho, no centro de São Paulo, ativistas não moradores da comunidade foram até o local para torcer pela Croácia contra o Brasil. Era uma concessão, revela a jornalista, uma vez que o plano inicial era ignorar a partida de abertura da Copa. O ato dos ativistas contrastava, conta a reportagem, com o dos moradores, que exigiram a transmissão do jogo nos locais públicos e torceram pelo Brasil.


De fato, abundam motivos para torcer contra a seleção. Essa é, no entanto, uma escolha individual. Tentar impor a torcida contra, por outro lado, constitui uma violência psicológica, que denota o paternalismo e o arcaísmo de parte da esquerda brasileira.

O paternalismo deriva da soberba. O ativista acredita que tem o monopólio da verdade, enquanto o morador, alvo de sua ação social, é incapaz de tomar decisões sozinho. Como um profeta, ele entra na comunidade para pregar que “a Copa está comprada” e que “a vitória da seleção será a vitória de Dilma” (aqui, ironicamente, se unindo aos radicais do outro lado do espectro político). No fim deste raciocínio limítrofe está, como um pote de ouro na ponta do arco-íris, a ideia de que a derrota da seleção colocará fim às inúmeras mazelas brasileiras. É como se a vitória da Argentina na final da Copa fosse capaz de instalar automaticamente rede de esgoto na outra metade das residências brasileiras que não têm o serviço.

Ao mesmo tempo, a ação mostra a incapacidade deste setor da esquerda de se atualizar e perceber que qualquer ativismo político só terá resultado se for baseado na vida real. Para tanto, esse ativismo precisa arregimentar apoio, incluindo de quem vai ser apoiado. Assim, entrar em uma comunidade para combater a "alienação do trabalhador" e dizer que o morador não tem direito de ter determinado sentimento (no caso, a vontade de torcer para a seleção) é um acinte. Mesmo reconhecendo os desmandos da CBF e os absurdos na organização da Copa, alguém pode optar conscientemente por ignorá-los durante o mundial para desfrutar de algum tempo de qualidade com sua família, amigos e comunidade. Isso, aliás, é o que milhões de brasileiros fazem a cada quatro anos há algumas décadas. Ao ignorar a alegria que a Copa do Mundo traz e negar tal felicidade, os ativistas mostram desconhecer a vida real e excluem quem deveriam incluir.

É perfeitamente possível amar o futebol, torcer pela seleção brasileira e parar para ver a Copa do Mundo sem que isso implique alienação ou apoio ao sistema e aos absurdos produzidos por ele. Para os ativistas que foram à favela do Moinho, isso é uma contradição. Para os moradores da comunidade, é a vida normal.
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Um comentário:

zeppelinuclear disse...

A questão não é apenas questionar a copa em si e os horrores que ela implica, mas o sistema milenar de levar para o esporte as divisões políticas do mundo. Seria bem mais interessante para a comunhão dos povos se os grandes eventos esportivos dessem espaço para as categorias amadoras também e privilegiassem equipes formadas por várias etnias e nacionalidades. O ufanismo patriótico apelativo, que é realçado nessas competições, não traz outra vantagem senão encobrir e mandar para o esquecimento todos os problemas e obrigar as pessoas a se orgulharem de seu país porque foi o melhor em um determinado esporte. No entanto, temos campeões em áreas de ciência e tecnologia, filosofia e artes que simplesmente não são lembrados nunca. Até porque suas proezas não fazem diferença nenhuma aparente na vida das pessoas, como acontece com as vitórias esportivas. Mas então por que faz tanta diferença para as pessoas esses campeonatos? Talvez porque eles mexam com suas partes mais primitivas, ligadas à guerra, a selvageria. E cada vez mais a torcida ganha adeptos da violência gratuita e truculenta. Não defenderia o fim desse tipo de circo, mas recomendaria um pouco mais de valorização a eventos mais construtivos e congregantes, que valorizem mais as pessoas do que suas nacionalidades.