A esquizofrenia da mídia diante da Copa


Ao voltar ao Brasil depois de 64 anos a Copa do Mundo revelou diferenças no mínimo curiosas no comportamento da mídia em relação às Copas passadas, jogadas no exterior.
Nelas o foco estava na seleção brasileira, coberta em todos os detalhes.
Eventos paralelos ligados à organização do evento aos problemas existentes no pais sede, quando mencionados, ficavam num plano bem secundário.
Aqui isso se inverteu, pelo menos até os dias que antecederam os jogos. Notícias sobre obras em atraso, por exemplo, tinham muito mais destaque do que as informações sobre a competição e os seus participantes.

Tal comportamento revela a relação esquizofrênica da mídia brasileira com a Copa do Mundo. Ao mesmo tempo que a defende, de acordo com os seus interesses mercadológicos, enfatiza as criticas, especialmente contra o governo federal, nitidamente por interesses políticos.
Creio até que gestores e mentores dessa mídia torçam contra a seleção na esperança de que uma derrota crie o clima capaz de dar à oposição um último alento. Ainda que custem um período de relativas baixas nas receitas publicitárias advindas do ufanismo futebolístico.
Se for assim será mesmo o derradeiro ato de desespero. Foi-se o tempo em que política e futebol contaminavam-se reciprocamente. Não estamos mais em 1950 quando candidatos aos mais diferentes cargos circulavam entre os jogadores da seleção, considerada invencível antes da hora, tentando tirar uma casquinha do prestígio por eles conquistado nos gramados até minutos antes da derrota no Maracanã diante do Uruguai.
Ou da ditadura, em seu momento mais sinistro durante a Copa de 1970, tentando sufocar os gritos das masmorras com marchinhas do tipo “prá-frente Brasil, salve a seleção”.
De lá para cá o país mudou muito. Foi campeão do mundo mais duas vezes, passou dos “90 milhões em ação” para mais 200 milhões de habitantes e, na última década, tornou-se uma das mais importantes economias do mundo.
Não há futebol que possa contaminar as conquistas populares como o aumento das redes de proteção social, a universalização do acesso ao ensino fundamental, a expansão do ensino superior e, principalmente, a ampla redução do desemprego.
O “complexo de vira-lata” pregado na testa dos brasileiros pelo escritor Nelson Rodrigues, logo após a derrota de 50, e que aplicava-se não só ao futebol mas a toda a auto-estima do país, desapareceu.
Mesmo as mazelas que persistem na insegurança das ruas, no trânsito caótico, na prisões medievais, nas habitações precárias deixaram de ser consideradas destinos manifestos da gente brasileira. Ao contrário, mostram-se como desafios a serem enfrentados e superados pela ação política, institucionalizada ou não.
A mídia tentará, uma vez mais instrumentalizar essas lutas, juntando-as ao futebol, tanto em caso de vitória como de derrota na Copa. Se vencermos o mérito será da seleção, se perdermos o ônus ficará com o governo.
Serão as últimas cartadas oferecidas por ela ao seus candidatos numa tentativa de utilizar esses temas, neste ano, da mesma forma irresponsável como pôs em debate o aborto nas eleições de 2010.
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