FIFA, Governança Global e a Copa do Mundo no Brasil


Por Luciana Ballestrin
A realização da Copa do Mundo no Brasil é uma das muitas comprovações das teses críticas e céticas sobre o poderoso – e simpático! – conceito de Governança Global, elaborado nos anos 1990. Basicamente, a ideia era a de sustentar e legitimar a horizontalidade de arranjos e multiplicidade de atores globais na condução de uma “governança sem governo”, isto é, demonstrar que a nova ordem mundial multipolarizada caminhava para uma concertação de interesses cada vez mais convergentes e distantes de um mundo maniqueísta, autoritário e bélico. Governo? Uma palavra muito dura e até ultrapassada, com autoridade vinculante a um determinado território… No mundo político, a palavra Governança veio a captar um estágio bastante particular do sistema-mundo capitalista.

Na década de 1990, a noção de uma sociedade civil global ganhou igualmente força, embalada pelo debate sobre a Reforma da ONU no seu cinquentenário, pela série de conferências internacionais temáticas, pelos riscos classificados como globais, pelas novas tecnologias de informação e comunicação, pela explosão do chamado Terceiro Setor, entre outras razões. Neste espírito aparentemente colaborativo, um conjunto de agendas com potencial primeiramente transformador foi cooptado e neutralizado com outros nomes simpáticos: desenvolvimento sustentável, segurança humana, qualidade da democracia, empresa cidadã, responsabilidade social empresarial – para citar apenas alguns.
Não tardou para um debate crítico contrapor-se à construção deste cenário: a Governança Global seria como uma espécie de nuvem “nebulosa”, na qual as relações de poder e as formas de dominação tornavam-se mais sutis e difíceis de se rastrear e enfrentar. Por dentro e nos meandros, ela não era representativa, transparente,accountable e democrática, apesar dos discursos, receitas e das “boas práticas” incentivadas.
Esta curta e recortada história parece ser bastante útil e significativa para o debate sobre os impactos da Copa do Mundo que está sendo realizada neste exato momento no Brasil. Este é um caminho complementar e alternativo para tentarmos entender como a ausência de democracia nesta nova conformação do sistema internacional afeta radicalmente os níveis locais e nacionais que afinal os compõe. Vivemos em um mundo no qual a decisão de um pequeno número de pessoas do outro lado do planeta tem o poder de vida e morte sobre comunidade inteiras – este foi o diagnóstico de David Held para atestar os abalos à validade da teoria da democracia confinada para dentro dos Estados.
A FIFA, fundada em 1904 e sediada na Suíça, passou por este grande processo de “modernização” tributário da lógica da Governança Global. Possuindo mais membros filiados do que a própria ONU, da qual também faz parte, ela procura acompanhar os discursos e as agendas dos atores amigáveis à democracia, responsabilidade social, desenvolvimento sustentável… Cada vez mais a organização preocupa-se em projetar uma imagem preocupada com práticas democráticas e transparentes, uma resposta às constantes denúncias da forma como é exercido e acumulado seu poder.
O que é o privado e o público na forma como a FIFA atua? Em que medida falar em “corrupção” realmente enquadra o principal objetivo hoje da FIFA? Qual é a importância política global de se negociar limpo? No estágio do turbocapitalismo no qual vivemos, a FIFA estimula um mercado e uma indústria inéditos na profissionalização do futebol, com um toque missionário do esporte como desenvolvimento. O poder político, econômico e simbólico que hoje a FIFA representa e alimenta faz com que a forma como se constrói sua representação política interna importe muito na sua representação política internacional.
Hoje, certamente a FIFA é um dos atores da sociedade civil global mais poderosos da Governança Global no ramo desportivo. A organização carece de todas as práticas que aparentemente estimula: democracia e accountability. A palavra corrupção talvez seja inadequada para pensar a FIFA, como infelizmente o é para o mundo dos negócios e dos interesses privados. Absolutamente descomprometida com o interesse público, embora faça uso de uma paixão muito pública para muitos países, a FIFA se comporta e se movimenta na obscuridade e nebulosidade das poderosas instituições internacionais com fins lucrativos.
Ao sugerir que a FIFA é um típico e representativo ator da Governança Global, não podemos esquecer o papel do Estado, geralmente interlocutor e facilitador da Governança. A controvérsia entre soberania e ingerência é intencionalmente por ele apagada. E aqui chegamos ao Brasil.
Assim como foi na África do Sul e o será na Rússia, o Brasil integra o grupo dos BRICS, o Sul Global de maneira geral, com a perspectiva de projetar uma contra-hegemonia dentro da hegemonia. A realização da Copa do Mundo no Brasil pode ser um gol de placa no que se refere à movimentação da economia interna e à projeção internacional do Brasil; mas, o que realmente não tem preço e nem medida é o encontro de muitas culturas, povos, etnias e nacionalidades dentro do nosso país. Trata-se de uma interessante convivência mista entre nacionalismos e cosmopolitismo em nome do futebol, ainda que não livre de estereótipos, preconceitos, machismos e racismos… Lembra-se que com todas as suas contradições e limites, a campanha contra o racismo levada pela FIFA é extremamente importante política e simbolicamente.
Um dos outros lados da história é o conjunto de injustiças, violências e exclusões nos níveis locais da vida em função da realização do campeonato mundial. A ausência de democracia e justiça no nível internacional se conecta diretamente com os impactos locais de uma Copa que não é popular e não é pública. Um dia o foi? A possibilidade de responsabilização direta sobre a FIFA é praticamente nula; existem muitos níveis governamentais locais e subnacionais que podem e foram pressionados pela sociedade. O “padrão FIFA” foi e é contestado das mais diferentes maneiras. E sabemos que a contestação pública é um dos motores de uma democracia ativa e pulsante, mesmo que a repressão policial desproporcional e descabida às manifestações nos indique exatamente o contrário.
A grande maioria das críticas, absolutamente fundamentadas, disse respeito à forma como foram conduzidas as obras e suas cifras, alimentando o cerco ao estrangulamento da vida nas cidades e nas periferias que vêm aumentando há muitos anos em várias metrópoles do Brasil. Neste sentido, as preparações para a Copa intensificaram o fenômeno da privatização do espaço e da vida pública crescentemente sentidas em muitas capitais do país. Para milhares de pessoas, as consequências foram ainda mais tragicamente concretas.
Por fim, chego então a uma das consequências mais significativas em torno da realização da Copa do Mundo no Brasil: a politização, a mobilização e a discussão sobre os impactos e as injustiças geradas internamente por uma entidade internacional cuja receita orbita para cima de quatro bilhões de dólares. A FIFA e a Copa estão na boca do povo, sem e com oportunismos da oposição política à esquerda e à direita, incluindo nesta última a mídia hegemônica.
Veja-se a declaração do secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke: “Vou dizer algo que é maluco, mas menos democracia às vezes é melhor para se organizar uma Copa do Mundo”. Esta declaração é desanimadora e assustadora para pensarmos o próprio futuro das ações da FIFA, mas faz muito sentido para nos orgulharmos do Brasil. Ao que tudo indica, o Brasil inaugurou um cenário de contestação pública importante para a viabilização das futuras Copas. E a escolha para as próximas de países como a Rússia e o Qatar já começa a ser globalmente questionada, com chance de reversão no caso do último. Não intencionalmente, o Brasil contribuiu para o mundo ao demostrar a urgência da conexão entre a democratização da vida local e internacional, cada vez mais indissociáveis para o combate às injustiças e para a realização da própria democracia.

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