O “grande pato amarelo” e os 25 anos do massacre na Praça da Paz Celestial


Por Erick da Silva

25 anos depois, os protestos que culminaram no que ficaria conhecido como o massacre da Praça da Paz Celestial ainda é uma ferida aberta na China. Mesmo passado mais de duas décadas, os acontecimentos ainda são tratados como um tabu, a data lembrada ao redor do mundo, na China, é alvo de censura e forte vigilância. Nem mesmo um inofensivo pato amarelo escapa a censura.



Durante os anos 1980, a direção do Partido Comunista encaminhava paulatinamente a China em direção a uma liberalização da economia, até então centralizada e controlada pelo Estado, em um esforço de atrair investimentos estrangeiros e incrementar o comércio exterior da nação. Esta política desencadeou uma série de aspirações na população chinesa, especialmente junto aos estudantes, que passaram a lutar para que as reformas econômicas fossem acompanhadas por uma reforma do sistema político, fortemente dominado pela estrutura partidária.

No começo de 1989, protestos pacíficos contra o governo tiveram início em algumas das maiores cidades do país. O maior dos protestos teve lugar em 18 de abril na capital chinesa, Beijing. Marchando pela praça Tiananmen no centro da cidade, milhares de estudantes carregavam bandeiras, gritavam palavras de ordem e cantavam canções, conclamando por uma atmosfera política mais democrática. Não havia contornos de questionamento ao próprio governo, ainda que a atmosfera daquele ano, com a crise do sistema soviético, coloca-se a cúpula do partido/governo em polvorosa.

O governo respondeu às manifestações progressivamente de forma mais ríspida. Funcionários governamentais que mostravam alguma simpatia pelos manifestantes foram expurgados. Diversos líderes dos manifestantes foram presos e uma campanha de propaganda foi dirigida aos estudantes das passeatas, declarando que eles estavam buscando “criar o caos debaixo dos céus”.

Em 4 de junho de 1989, como os protestos cresciam dia após dia e os jornalistas e cinegrafistas estrangeiros captavam imagens dos dramáticos acontecimentos, o exército chinês foi chamado para reprimir as manifestações. Uma quantidade desconhecida de manifestantes foi morta – estima-se em milhares deles – durante o que passou a ser conhecido como o Massacre da Praça da Paz Celestial.

Estima-se que cerca de cem mil manifestantes entre estudantes, intelectuais e trabalhadores participaram do protesto. A China vê o protesto de 1989 como uma ação "contrarrevolucionária" e até hoje não divulgou um número oficial de mortos provocados pela repressão.

Ano passado, os chineses encontraram uma maneira engenhosa de relembrar os manifestantes mortos pelas forças armadas. Uma montagem fotográfica mostra uma fileira de patos no lugar dos tanques. O pato que tomou o lugar dos tanques é obra do artista holandês Florentijin Hofman. É uma versão gigante dos patinhos de borracha que muitas crianças brincam em banheiras e piscinas. Não deixa de ser irônico que o objeto com aparência de brinquedo tenha tomado o lugar de tanques na foto.

Mesmo esse inofensivo pato foi censurado, até mesmo a menção ao termo “grande pato amarelo” foi bloqueada na rede chinesa. A liberalização da economia, que deu inicio as manifestações em 1989 foi exitosa, os números da economia chinesa não deixam duvidas. A abertura democrática, no entanto, segue uma questão não resolvida.


Com informações Guardian, BBC, Opera Mundi e Xinhua
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