O que os números das pesquisas eleitorais também revelam

A campanha eleitoral mal começou, mas as análises “meio copo vazio” de Dilma já frequentam a grande mídia há muito tempo. A publicação de pesquisa eleitoral feita pelo Datafolha no último dia 18 foi razão para mais uma enxurrada de leituras desse tipo. Se a comunicação social deve ter uma função pedagógica, é mister mostrar que os números exibidos dão base também a outras interpretações, pelo menos para que o leitor/eleitor possa comparar, pesar e julgar.
Comecemos pelos números das intenções de voto. O quadro geral que transparece, ao tomarmos como um todo as seis pesquisas eleitorais feitas pelo citado instituto, desde meados de fevereiro deste ano, é impressionantemente estático, ao contrário do que as manchetes dão a entender. Não houve mudanças significativas da última pesquisa, coletada nos dias 1 e 2 de julho, para a atual, coletada nos dias 15 e 16 de julho.
Tampouco da penúltima, ou da antepenúltima. Todos os candidatos mantiveram-se dentro da margem de erro, ainda que, há de se notar, o cálculo das margens de erro feito pelos institutos, de 2% a 4%, seja incerto, pois a pesquisa utiliza metodologia de cotas e não puramente probabilística.
Na verdade, ao tomarmos as seis pesquisas em conjunto, notamos que Dilma somente caiu nas intenções de voto, de 44% para 38%, da primeira pesquisa, 19 e 20 de fevereiro, para a segunda, 2 e 3 de abril. Desde então, a candidata tem se mantido em torno dessa marca.
Por seu turno, Aécio Neves somente subiu, de 16% para 20%, da segunda para a terceira pesquisas, feitas nos meses de abril e maio, respectivamente. Desde então tem se mantido estático nos 20%, pesquisa após pesquisa. Eduardo Campos parece, à primeira vista, o que mais variou, pois a curva de seu gráfico pelo menos se mexe, mas sempre dentro da margem de erro.
Começa a série com 9%, em fevereiro, e acaba com 8%, na última pesquisa.
O que esses dados querem dizer? Entre outras coisas, que as preferências dos eleitores não estão mudando rapidamente. Há certa expectativa ou paralisia do eleitorado, o que é compreensível, dado que, no primeiro semestre desse ano, a Copa do Mundo da FIFA ocupou grande parte do noticiário. Esses dados também revelam o tão comentado impacto da Copa do Mundo nas percepções políticas do eleitorado. Na verdade, mais correto seria falar em falta de impacto, pois o que se constata é que o evento não alterou as preferências dos eleitores frente aos candidatos.
Mas isso não se deu em um contexto neutro. Pelo contrário, a grande mídia moveu uma forte campanha contra a organização do evento, culpando o governo federal, quando não Dilma diretamente, por supostas falhas, atrasos, corrupção, promessas não cumpridas e má administração. Tal campanha negativa ecoou fortemente nas mídias internacionais, que também passaram a projetar expectativas de catástrofe para a Copa do Brasil. Esperava-se o fracasso e que esse fracasso fosse cobrado de Dilma.
A Copa foi, contudo, um sucesso, o que aparentemente cancelou os efeitos da campanha negativa da mídia sobre as intenções de voto em Dilma. Outro dado importante a se notar é a rejeição dos candidatos. Aqui, os jornais chamaram bastante atenção para o fato de Dilma ter um índice de rejeição, 35%, que é praticamente o dobro do de Aécio, 17%, e três vezes o de Eduardo Campos, 12%.
Novamente, a informação só vem pela metade, pois o índice de rejeição tem que ser pesado juntamente com o índice de conhecimento que o eleitorado tem do candidato, e esse dado não foi apresentado, ainda que saibamos que o de Dilma, pelo simples fato de ser presidente, é quase 100%, enquanto Aécio e Campos têm índices muito menores.
As conclusões a serem tiradas desse quadro são nada óbvias. Se as coisas continuam mais ou menos da maneira como estão, Dilma teria atingido o teto de sua rejeição, pois o eleitorado já a conhece e já tem alguma opinião formada sobre ela. Já Aécio e Campos têm um caminho pela frente. Ao se tornarem mais conhecidos certamente verão seus índices de rejeição também aumentarem.
Mais uma vez, precisamos levar em consideração o contexto informacional. Até o momento, o governo Dilma e o partido da presidente, o PT, têm sofrido um ataque sistemático da grande mídia, acusados de má gestão, desmando e corrupção, enquanto os candidatos da oposição são tratados de maneira bem mais leniente, quando não francamente simpática. Ou seja, com raríssimas exceções, tudo o que o público de eleitores recebe são notícias ruins sobre o governo, acrescidas de uma cobertura que pinta o País em franca crise econômica e política, a despeito de todas as evidências em contrário.
Compondo a situação, o governo federal tem tido dificuldade em comunicar ao eleitorado notícias positivas de sua gestão e do País como um todo. A despeito do bloqueio midiático, o governo tem em suas mãos instrumentos de comunicação, ainda que limitados, mas essas informações parecem não chegar à população. Talvez embevecido por suas seguidas vitórias eleitorais, o PT também parece ter aberto mão, desde o primeiro governo Lula, de cultivar meios de comunicação que constituam alternativas reais para o grande público. Em suma, do ponto de vista informacional, estamos no pior momento possível para a candidatura da situação.
Isso não quer dizer que as coisas vão necessariamente melhorar para Dilma. Em breve, contudo, sua candidatura terá no horário eleitoral gratuito, no qual contará com muito mais tempo que qualquer oponente, uma chance real de informar os eleitores e assim resistir à avalanche de propaganda negativa da qual é objeto.
É claro que os candidatos da oposição aumentarão o tom das críticas. O mesmo devemos esperar da grande mídia, que tende a repetir o comportamento extremamente militante das eleições passadas. Enfim, entramos no período abertamente político do calendário eleitoral, no qual as máximas maquiavelianas da virtude e da fortuna imperam. O resultado do pleito de 2014 está longe de estar determinado. Vamos ao jogo!

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