Como seria o Rio Grande do Sul governado pela RBS?


Por Erick da Silva

Imaginem a seguinte cena: o governador do Rio Grande do Sul, alegando um cenário de dificuldades financeiras por queda na arrecadação, anuncia através de uma videoconferência, que mais de uma centena de servidores seriam demitidos. Sem anunciar previamente quais os funcionários e nem as áreas que viriam a ser afetadas pelos cortes, mas antevendo-se ao clima de incertezas e aflição que tal decisão provocaria, recorre a uma frase de estímulo onde sugere que os demitidos encarem a nova realidade de desempregados com "coragem, energia e desapego para deixar de fazer coisas que não agregam e investir no que pode nos fazer crescer".


Seguramente uma decisão destas provocaria grandes repercussões, com manifestações contrárias e indignadas. A insensibilidade na forma e seu arbítrio iriam corroborar para acirrar ainda mais aos ânimos.

A redução de servidores teria um impacto direto nos serviços prestados a população. Como ficaria, por exemplo, uma escola se 48 horas antes fosse anunciado que um grupo aleatório de professores seria demitido? Seguramente provocaria uma grande instabilidade e afetaria diretamente as aulas para os estudantes. O mesmo exercício poderíamos fazer para outras áreas do estado, como a segurança, saúde, fazenda, transportes etc, tendo os mesmos efeitos nefastos.

A cena descrita acima é um mero exercício de analogia a um fato que ocorreu no Grupo RBS esta semana. O presidente executivo da RBS,  Eduardo Sirotsky Melzer, anunciou na última segunda-feira (04/08) a demissão de 130 funcionários, por videoconferência aos chamados "colaboradores". Demissões que foram confirmadas na quarta-feira (06/08), afetando diversas áreas da empresa.

Após o discurso, Eduardo Sirotsky Melzer enviou uma carta aos seus "colaboradores" (a íntegra pode ser acessada aqui) onde, entre outras pérolas, faz menção a um dos grandes mantras do neoliberalismo: a meritocracia. A meritocracia nada mais é que uma construção discursiva que busca legitimar mecanismos arbitrários de desigualdade. Uma ideia de sociedade que, por concepção, não é para todos e todas, mas apenas para os mais aptos e capazes de "ascender ao topo". Felizmente, o serviço público possui uma legislação específica que impede que governantes pratiquem demissões sumárias, sejam elas por motivos políticos ou "meritocráticos".

Algum amigo leitor poderia nos lembrar que as coisas não são bem assim, pois no final dos anos 1990, quando o Rio Grande do Sul era governado por Antonio Britto (PMDB) uma das grandes metas do seu governo era a redução do estado, que entre outras coisas, chegou a criar o Plano de Demissões Voluntárias (PDV), afetando duramente a qualidade dos serviços públicos prestados para a população. A ideia de Estado mínimo sempre resulta em  um estado para poucos. Yeda Crusius (PSDB) quando governou não teve força política para adotar expediente semelhante, envolta num governo em permanente crise, teve que contentar-se "apenas" com a venda de parte do Banrisul.

Coincidência ou não, tanto Britto quanto Yeda, duas gestões marcadamente neoliberais que governaram o RS, tiveram suas carreiras políticas impulsionadas após período como funcionários da RBS, quando gozavam de uma ampla exposição midiática. As demissões desta semana no Grupo RBS nos dão uma boa pista de como seria um novo governo no RS guiado pelas ideias de gestão desta empresa.
.

Nenhum comentário: