Hiroshima e Nagasaki 69 anos depois


Por Amy Goodman

“Odeio a guerra”, afirmou Koji Hosokawa quando nos encontrávamos junto ao Memorial da Paz de Hiroshima, Japão. Num extremo do Parque Comemorativo da Paz erige-se o esqueleto de um edifício de quatro andares. O edifício foi um dos poucos que ficaram em pé após os Estados Unidos terem lançado a bomba atómica em Hiroshima a 6 de agosto de 1945 às 8.15 da manhã. Três dias mais tarde, os Estados Unidos lançaram uma segunda bomba em Nagasaki. Centenas de milhares de civis morreram, muitos no momento da explosão e outros tantos lentamente como consequência de queimaduras graves e do que mais tarde passou a ser conhecido como doenças provocadas pela radiação.

O mundo observa horrorizado os diversos conflitos militares da atualidade, que só deixam atrás de si mais destruição. Na Líbia e em Gaza, na Síria, no Iraque, no Afeganistão e na Ucrânia. Não muito longe dos mortos e dos feridos desses conflitos, os mísseis nucleares aguardam alertas, à espera do terrível momento em que a arrogância, um acidente ou a falta de humanidade provoquem o próximo ataque nuclear. “Odeio a guerra”, reiterou Hosokawa. “Odeio a guerra, não os norte-americanos. A guerra torna as pessoas loucas”.



Em 1945, Koji Hosokawa tinha 17 anos. Trabalhava no edifício da companhia de telefones, a menos de 3 quilómetros de distância da zona zero, onde caiu a bomba: “Estava a três quilómetros a nordeste desta zona. Ali fui exposto à bomba. Estava num edifício muito robusto, de maneira que sobrevivi por milagre”. A sua irmã de 13 anos não teve a mesma sorte: “A minha irmã mais nova também tinha ido trabalhar e encontrava-se a 700 ou 800 metros de distância do hipocentro e ali foi exposta à bomba. Estava com uma professora e com os alunos. Ao todo, as 228 pessoas que estavam ali, juntamente com ela, morreram”.

Caminhamos pelo parque para o Museu da Paz de Hiroshima. Ali exibem-se as imagens da morte: as sombras das vítimas queimadas projetadas nos muros dos edifícios, as fotografias do caos que sobreveio à bomba e das vítimas da radiação. Quase sete décadas mais tarde, a Hosokawa ainda se enchem os olhos de lágrimas ao relatar o sucedido. “A maior dor de minha vida é que a minha irmã mais nova tenha morrido pela bomba atómica”, sustentou.

Um dia antes de reunir com Koji Hosokawa estive em Tóquio, onde entrevistei Kenzaburo Oe, vencedor do Prémio Nobel de Literatura. “Quando era menino, com 12 anos de idade, o Japão entrou na guerra e foi no final da guerra que o Japão sofreu os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. Naquele tempo sofri um grande choque, mas também a minha mãe, as nossas famílias, todas as pessoas naquele tempo estavam perplexas com a bomba atómica. Tratava-se da maior catástrofe que jamais tínhamos vivido, por isso o sentimento de ter que sobreviver a isto, de o superar e começar de novo foi muito poderoso”.

Agora, com quase 80 anos, Kenzaburo Oe refletiu muito sobre a conexão que existe entre a bomba atómica e o desastre de Fukushima, a central nuclear que colapsou quando um terramoto e um tsunami devastadores açoitaram o Japão a 11 de março de 2011. O Prémio Nobel disse ao jornal francês “Le Monde”: “Hiroshima deve ficar gravada na nossa memória: é uma catástrofe mais terrível que os desastres naturais porque foi provocada pelo homem. Repeti-la, ao mostrar a mesma falta de respeito pela vida humana com a construção de centrais de energia nuclear, é a pior traição à memória das vítimas de Hiroshima”, afirmou.

Após o desastre de Fukushima, Oe afirmou: “Todos os japoneses sentiram um profundo arrependimento …O ar que se respirava no Japão era quase o mesmo que depois da bomba de Hiroshima no final da guerra. Devido a este clima, o Governo [em 2011], com o consentimento da população japonesa, prometeu prometeu acabar ou desativar as mais de 50 centrais nucleares do Japão”, sustentou o Prémio Nobel.

Sobreviventes da bomba atómica como Koji Hosokawa, escritores como Kenzaburo Oe, tal como centenas de milhares de pessoas que agora são idosas, foram testemunhas do surgimento da era nuclear em 1945 e voltaram a experimentar as suas devastadoras possibilidades recentemente em Fukushima. Apesar de levantar riscos diferentes para a humanidade, há um vínculo entre os arsenais de armas nucleares e as centrais nucleares, já que os produtos derivados de algumas centrais nucleares podem ser utilizados como material para fabricar ogivas nucleares. Quer se trate de um ato de guerra, de um ato de terrorismo proveniente de uma arma nuclear que caiu nas mãos de um ator não estatal ou de um acidente numa central nuclear, os desastres nucleares são terrivelmente destrutivos, mas são totalmente evitáveis. Precisamos de uma nova forma de pensar, de um novo esforço para eliminar as armas nucleares e passar a utilizar energia segura e renovável em todo mundo.

Quando saíamos do Parque da Paz de Hiroshima, Koji Hosokawa pediu-me que parasse. Olhou-me nos olhos e disse-me que não me esquecesse das vítimas: “Todas estas pessoas viviam aqui”, afirmou. “Viviam aqui”.


Artigo publicado em Truthdig em 6 de agosto de 2014. Denis Moynihan colaborou na produção jornalística desta coluna. Texto em inglês traduzido por Mercedes Camps para espanhol. Tradução para português de Carlos Santos para Esquerda.net

Nenhum comentário: