Marcio Pochmann: A política externa e a nova partilha do mundo


Por Marcio Pochmann

Com 7,2 bilhões de habitantes e mais de 200 países, o planeta Terra contabiliza Produto Interno Bruto (PIB) de US$ 75 trilhões. Se repartido equivalentemente, cada habitante receberia US$ 10,5 mil em 2013 (R$ 23,6 mil). Infelizmente, a repartição da renda no mundo não é bem assim. Como diria G. Shaw: “A estatística é uma ciência que demonstra que se meu vizinho tem dois carros e eu nenhum, nós dois temos um, em média”.


Atualmente, o PIB global encontra-se repartido em quatro grandes blocos de países. De um lado, as economias ricas que se associam à Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE),­ operando em dois grandes blocos distintos de economias. Um na América do Norte, outro sob o comando da União Europeia. De outro lado, a parte restante dos países fica com 49% do PIB, dividindo-se também em dois grandes blocos de economias.  O primeiro atende pelo nome de Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e o segundo bloco compreende os demais países restantes.
De tudo isso, interessa destacar o Brics por se caracterizar por ser mais dinâmico e se diferenciar da subordinação e dependência associada à dinâmica das economias ricas. Em 1990, por exemplo, a União Europeia respondia por 31,9% do PIB global, os Estados Unidos tinham 30,6%, os Brics, 7,9% e os demais países, 29,7%. Na comparação entre os anos de 1990 e 2013, os países ricos (OCDE) reduziram a sua participação relativa no PIB global de 62,5% para 51%. Nesse período de tempo, o Brics teve o peso relativo no PIB global crescido de 7,9% para 21,2%.
Projetada para a próxima década a mesma trajetória, os Brics poderão alcançar cerca de um terço do PIB global, restando próximo de um quinto cada para Estados Unidos e União Europeia no produto mundial. Dentro dessa nova partilha do mundo, se pode reconhecer o reposicionamento do Brasil. Até o início da década de 2000, a economia nacional estava fortemente associada à dinâmica do bloco dos países ricos. Nos últimos anos, três ações governamentais contribuíram para apontar o caminho próprio do Brasil, graças a uma opção pelo desenvolvimento de uma “política externa ativa e altiva”, como destaca o embaixador Celso Amorim – ministro de Relações Exteriores durante os governos de Itamar Franco (1993-1995) e de Lula (2003-2010), hoje ministro da Defesa.
A universalização da diplomacia com enfoque nas relações Sul-Sul do mundo impulsionou o comércio com países não ricos. Somente com a China, as exportações passaram de US$ 1 bilhão para ­US$ 46 bilhões, enquanto em relação ao mundo as vendas externas brasileiras subiram de US$ 60 bilhões em 2002 para US$ 242 bilhões em 2013. Além disso, o perdão da dívida externa em países pobres criou saldo comercial, assim como a abertura de novas embaixadas e consulados e a maior cooperação do país por meio de instituições públicas.
A segunda ação governamental direcionou-se à internacionalização do setor privado brasileiro. Por meio de estímulos do BNDES, várias empresas tornaram-se capazes de elevar a exportação. Por fim, a terceira ação foi voltada ao fortalecimento do sistema de defesa – o país tem a segunda maior fronteira seca do mundo e a maior costa marítima no Oceano Atlântico. Agrega-se, ainda, a descoberta de enormes reservas de petróleo na camada do pré-sal.
A constituição de estratégia para o sistema de defesa nacional vem se sustentando por meio de diversos acordos de aquisição tecnológica nos campos da aviação supersônica, submarino de propulsão nuclear, modernos equipamentos antiaéreos e eletrônicos. É a recomposição do complexo industrial de defesa.
Diante disso, se pode perceber a natureza das críticas da oposição à política externa do governo da presidenta Dilma Rousseff. Possivelmente, desejam avidamente embarcar na canoa dos países ricos sem reconhecer, contudo, a nova repartição do mundo. Uma canoa furada. 
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