Com o terror racional podemos dialogar?


Por Reginaldo Nasser

Do alto de sua sabedoria e de seu “realismo humanista”, experientes jornalistas, analistas internacionais, professores e diplomatas brasileiros estão em estado de indignação após o discurso da presidenta Dilma Rousseff na ONU.

Tudo isso porque a presidenta condenou o uso da força por parte dos EUA como meio de resolução de conflitos armados que acontecem, atualmente, na Síria e no Iraque, ao mesmo tempo em que solicitou o diálogo com a comunidade internacional e apelou para o uso do direito e das instituições internacionais como instrumentos mais adequados para a paz. Os “indignados” dizem ser favoráveis ao diálogo e apoiam a utilização do direito internacional, mas ressalvam que isso não serve para esses “fanáticos islâmicos”. Segundo um experiente jornalista brasileiro, “nem à força esse tipo de fanáticos se dobra”. Se eu entendi corretamente, o jornalista quer dizer que eles não são passiveis de dissuasão. Bem, neste caso sou obrigado a concluir que é preciso eliminá-los. É isso mesmo?

No mesmo veiculo de comunicação, um diplomata igualmente sábio e experiente condena as “banalidades piedosas” de nossa diplomacia em relação a esses “fanáticos” e “psicopatas”. Estamos diante de verdadeiros humanistas, que valorizam os direitos humanos, a Justiça e a igualdade; mas não são ingênuos e colocam ressalvas em relação àqueles que seriam dignos desses valores.  Do alto de sua sabedoria, compartilhada com aqueles que usam a força, julgam que têm autoridade moral para qualificar quem merece e quem não merece ser agraciado para o diálogo ou, no que dá no mesmo, quem merece e quem não merece morrer. Os gregos chamavam isso de Hybris.

Vou aceitar, provisoriamente, a “argumentação” dos “realistas humanistas”. Em que se sustenta sua afirmação de que não podemos dialogar com esses “insurgentes islâmicos” (creio ser mais apropriada a utilização do termo insurgente, amplamente utilizado nos estudos de conflitos internacionais)? Por que praticam atos de terror? Sim, assassinaram jornalistas, mataram civis e combatentes e, com certeza, não prezam pela democracia e os direitos humanos. Até aqui de pleno acordo. Mas o Brasil não mantém estreitas relações diplomáticas com Estados que ocupam território de outros, que torturam e que, em conflitos armados, matam por volta de 80% de civis, sendo 30% crianças? O Brasil não mantém “relações carnais” com o país que, segundo a Opinion Research Business, foi responsável pela morte de 1,2 milhão de iraquianos? Isso mesmo, mais de um milhão de mortos! Será que temos que aceitar uma das frases mais cínicas e, infelizmente, verdadeiras? “A morte de alguns é uma tragédia, já a morte de milhares é um problema de estatística! (frase atribuída a Stalin)”.

A não ser que faça diferença para esses humanistas se o terror é praticado de forma racional e lógica por máquinas de guerra altamente sofisticadas, como os drones, ou se é praticado por agentes irracionais que fazem uso de facas e espadas.

Mas essas máquinas de guerra racionais, embora se autoproclamem “democráticas”, não têm prestado informações sobre as pessoas que estão morrendo em decorrência dos bombardeios na Síria e no Iraque. Entretanto, investigações independentes começam a revelar que os alvos estratégicos não foram tão precisos e dezenas de civis já foram mortos. O que vão dizer nossos “realistas humanistas”? Que essas mortes são decorrentes de efeitos colaterais? Nossos ciosos democratas aceitam, sem nenhuma dúvida, a justificativa de que os “fanáticos” ameaçam a maior potência militar de todos os tempos e que só restaria a esta se defender. Sim, não é piada!  Foi essa a justificativa. A Al Qaeda era a maior ameaça existencial aos EUA, mas aí apareceu o ISIS ou EI (siglas referentes ao grupo Estado Islâmico) ou alguma coisa jihadista que é pior ainda. Mas eis que, desde o início de setembro, ficamos sabendo que existe um grupo chamado “The Khorasan”.  Anunciado pela mídia como a mais perigosa ameaça de todos os tempos. Mas, pasmem. Segundo recente investigação conduzida pelos jornalistas Glenn Greenwald e Murtaza Hussain, esse grupo é uma grande farsa! Mas uma vez que essa invenção serviu aos propósitos dos EUA, que era o de justificar o início da campanha de bombardeio na Síria, a narrativa Khorasan simplesmente se evaporou tão rapidamente como se materializou.

Em reportagem publicada no The Nation , Lee Fang detalha como analistas de televisão, incluindo generais da reserva e ex-funcionários do Departamento de Segurança Interna, têm aparecido constantemente na mídia fazendo pregação para que os EUA ataquem os insurgentes na Siria. Detalhe: todos eles têm laços empregatícios com empresas militares que prestam serviços para o pentágono.

Greenwald e Hussain têm toda razão. O que aconteceu é tudo muito familiar. A administração Obama precisava de uma justificativa legal para bombardear outro país, e nada melhor do que usar, ad nauseam, as emoções dos vídeos de decapitação promovidos pelos insurgentes. Depois plantaram na mídia a promoção do EI como pior do que a Al Qaeda e, depois, um grupo pior ainda e que poderia lançar ataques mais coordenados e maiores do que os realizados no dia 11 de Setembro. Nenhum desses humanistas tem dúvida em relação a isso, correto?

A depender da valiosa contribuição desses experientes humanistas, a campanha de terror dos EUA no Oriente Médio pode-se dar como vitoriosa, mas cuidado: de acordo com a mitologia grega, onde há Hybris (arrogância, prepotência) há sempre a Nemesis (punição, castigo) que pode tardar, mas não falha.

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