Sartori: Seria patético, não fosse um escárnio


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A candidatura de José Ivo Sartori (PMDB) ao governo gaúcho seria somente patética não fosse, antes disso, um escárnio com a política e com o processo democrático.

Nada contra a pessoa do José Ivo Sartori, que se dá a conhecer na propaganda eleitoral como um homem simples, orgulhoso da origem italiana, dedicado à família e cultuador de hábitos singelos como, por exemplo, pedir a benção da mãe.

A campanha do Sartori é o coroamento da estratégia que combina esperteza, diversionismo e oportunismo eleitoral com um assustador vazio programático. No lugar de propostas concretas para melhorar a vida das pessoas, trucagem publicitária com clichês, bordões e frases de efeito. Chega ao segundo turno incrivelmente sem apresentar uma única proposta com “início, meio e fim”. Ridiculariza, assim, o processo de deliberação pública que, na democracia, deveria ser pautado pelo debate racional e confrontativo entre idéias e projetos.



Não se pode desconhecer, contudo, que o êxito de Sartori é fruto também da inteligência estratégica. A campanha foi planejada apostando na repetição do fenômeno ocorrido no primeiro turno da eleição de 2002 quando Britto, pelo PPS, derreteu, e Rigotto, pelo PMDB, se beneficiou dos votos migrantes.

Nas três últimas décadas, a polarização ideológica que domina o debate político gaúcho tem no PMDB a vértebra estrutural pelo lado do conservadorismo. Desde 1986, o PMDB só não governou o Estado nos períodos do PT e do PDT. Apesar disso, Sartori esconde o Partido para fazer uma campanha olímpica, acima e ao largo da “histórica polarização que prejudica o Estado”; proclama que seu “Partido é o Rio Grande”.

A frase “meu Partido é o Rio Grande” não sugere algo bom e verdadeiro; parece, ao contrário, um truque, uma jogada de propaganda baseada em falsidades.

Sartori apóia Aécio para a Presidência, mas usa o discurso da unidade e da neutralidade para fazer campanha subliminar contra o PT. No fundo, fustiga o sentimento rancoroso e do preconceito antipetista. O coordenador de marketing da campanha é claro: “O PT é um partido enraizado. As pessoas veem nele um grupo. Queríamos mostrar Sartori como um candidato que não defende interesse de partido, de grupos, mas dos gaúchos” [ZH].

Será mesmo verdade que Sartori não defende “interesse de partido, de grupos, mas dos gaúchos”? Perguntado na RBS sobre nomeação para a área da cultura, Sartori respondeu: “Se me deixarem à vontade, hehe [risos], eu terei que escolher alguém que esteja afeito à área e que tenha postura e afinidade com todo este processo”. Então lhe perguntaram por que não o deixariam escolher o secretariado, e ele respondeu: “Ah, porque hoje os interesses são muitos!”. Que interesses seriam esses?

O slogan “meu Partido é o Rio Grande” também não deixa de ser perigoso para o processo político, porque expressa uma perspectiva autoritária, intolerante e estimagtizadora. Não reconhece as diferenças e a legitimidade do conflito na democracia. Na Alemanha dos anos 1930, o totalitarismo foi sendo semeado paulatinamente, num processo repetido e duradouro de inculcação ideológica odiosa que lidava com apelos simples para o senso comum. A propaganda e a mídia foram instrumentais nesse sentido. O nascente nazismo via nos judeus, nos comunistas, nos ateus, nos homossexuais, nos eslavos, etc, “ameaças à Pátria e à raça superior”.

Não é de hoje que a direita gaúcha age como camaleão para parecer o que não é e esconder seus reais propósitos. Promovem uma guerra antipetista permanente. Antes de serem a favor do Rio Grande, são contra o PT. Em cada eleição, adotam truques novos.

Na eleição de 2002, usaram o mantra da “pacificação do Rio Grande”. Para desalojar o PT das principais cidades do RS, em 2004 inventaram o bordão “manter o que está bom e mudar aquilo que precisa melhorar”. Em 2006, a empulhação foi o “novo jeito de governar”.

A postura do Sartori é lamentável. Segue fiel ao script de marketing, e sairá da eleição com uma estatura menor, independentemente do resultado em 26 de outubro. Ao se vitimizar com a crítica política e com o chamamento do Tarso para a comparação de projetos para o Rio Grande, ele diminui sua contribuição para a democracia e desidrata da política os valores nobres.

A postura digna e democrática com que Tarso respeita a eleição contrasta com a do adversário. O comportamento do Tarso é próprio daqueles que engrandecem a política e valorizam a democracia como um bem substantivo, não como fetiche.
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