Movimentos nas ruas contra o genocídio do povo negro


Por Oro Mendes

No início do mês de novembro, a Anistia Internacional divulgou um estudo que apresentava dados alarmantes sobre a situação da população jovem e negra no Brasil: segundo o relatório intitulado Mapa da Violência, 83 pessoas negras são assassinadas por dia. Este número representa 2.500 mortes por mês e chega a 30 mil homicídios por ano, configurando um verdadeiro genocídio da população negra, na opinião da própria organização e de diversos setores dos movimentos sociais.

Para denunciar este genocídio, diversas cidades brasileiras organizaram-se e saíram em marcha pelas ruas no dia 20 de novembro, o chamado dia da Consciência Negra, em que se faz referência a um dos heróis da luta e da resistência negra: Zumbi dos Palmares, assassinado em 20 de novembro de 1695.

Neste contexto, em Porto Alegre foi organizada a I Marcha Zumbi dos Palmares Independente, Classista e de Luta: Contra o Racismo e pela Reparação. A atividade foi convocada por diversas organizações, coletivos, sindicatos e movimentos sociais da cidade e foi articulada através do Comitê de Porto Alegre Contra o Genocídio da População Negra.


A Marcha Zumbi dos Palmares

Com a concentração iniciada às 17h em frente ao Palácio Piratini, local que é a sede do governo estadual, em pouco tempo já se faziam presentes centenas de ativistas sociais negros e negras e apoiadores da causa.

Além da denúncia do genocídio da população negra, o movimento reivindicava através de faixas, cartazes, bandeiras e gritos: a reparação histórica e humanitária ao povo negro, o fim dos despejos, a regularização fundiária de todas as ocupações através da desapropriação por interesse social, a demarcação e titulação de territórios indígenas e quilombolas e o arquivamento da PEC 215/2000. Ainda manifestava-se em defesa da população de rua, que trava uma luta há meses com o poder público municipal para tentar manter a EMEF Porto Alegre, única escola na cidade que atende a jovens e adultos em situação de rua e que está com a ameaça de fechamento através da Secretaria Municipal de Educação.

As Intervenções

A partir das 19h, cerca de 600 pessoas começavam a marchar pelas principais ruas de Porto Alegre para denunciar o genocídio da população negra e exigir o fim do racismo. Ainda em frente ao Palácio Piratini foi realizada a primeira intervenção que viria a dar o caráter combativo da marcha. As placas com o nome da Rua Duque de Caxias, conhecido facínora escravagista, foi substituída por uma singela homenagem a uma referência da luta negra, os Lanceiros Negros.

Os dados do genocídio da população negra divulgados pela Anistia Internacional ainda foram escritos com tinta branca no chão em frente à sede do governo estadual: “83 mort@s por dia. 2.500 mort@s por mês. 30.000 mort@s por ano. E você não se importa?”

A marcha seguiu com a batucada de tambores e gritos como “Acabou o amor! Isso aqui vai virar Palmares!”. Durante a caminhada, outras placas da Rua Duque de Caxias foram rebatizadas e a intervenção também ocorreu no museu Júlio de Castilhos.

Após quase uma hora de marcha, os 600 ativistas chegaram em frente ao Largo Zumbi dos Palmares, local em que foi realizada mais intervenções artísticas e culturais. A primeira delas foi uma performance teatral espontânea embalada pela música “Negro Fujão” e, em seguida, começou a se organizar a maior intervenção da marcha e uma das maiores já realizada nos últimos anos na cidade.

Com a ajuda do carro de som, negros e negras que participavam da marcha foram convidados a realizar a intervenção artística que consistia em juntar 83 pessoas para deitarem-se no chão e, desta forma, representar as 83 mortes de jovens negros por dia. Ao som de cada batida do tambor, um corpo caía no chão. Com os 83 “mortos”, seus corpos foram contornados por tinta branca e, acima de todos os corpos, foi escrita a denúncia da quantidade de mortes diárias. Enquanto os corpos eram contornados, outras pessoas colaboravam com a intervenção através de gritos como “não matem nossos filhos!” “por que você atirou em mim?”, entre outros. Durante a intervenção, diversas pessoas não contiveram a emoção e choraram, lembrando toda a exploração histórica e o sofrimento do povo negro.

Por fim, os corpos ficaram marcados no asfalto e a denúncia foi realizada. Como última intervenção, ainda teve a apresentação de Maculelê realizada pelas crianças do Quilombo dos Machado/ Comunidade Sete de Setembro, que emocionaram ainda mais a todas as pessoas.

O contraponto à Casa Grande

Em paralelo a todas estas atividades, a Prefeitura Municipal de Porto Alegre em parceria com o governo do estado e entidades ligadas ao governo, promovia outra atividade, com caráter basicamente festivo e comemorativo, desrespeitando o referencial de luta e resistência que simbolicamente a data de 20 de novembro representa.

Nesse sentido, a marcha organizada pelo Comitê de Porto Alegre Contra o Genocídio da População Negra buscou fazer um contraponto à Casa Grande, alegando que a atividade institucional não representava os interesses e as demandas da população negra, sendo isto comprovado devido à baixa adesão da população à atividade governamental e a alta adesão à marcha proposta de forma independente e com o caráter de luta.

Já virou Palmares!

Para o advogado e militante da Frente Quilombola/RS, Onir Araújo, a data de 20 de novembro não deve ser entendida como uma comemoração, mas sim, uma data de luto e de luta.
“O Estado democrático de direito não existe para o nosso povo. Há parlamentares como Luiz Carlos Heinze e Alceu Moreira estimulando o ódio contra quilombolas e indígenas. Para nós, o Estado significa somente contenção e violência.” Afirma o militante, que finaliza: “Ninguém chora pelos nossos filhos. Não existe um pai ou uma mãe negra que não se preocupe quando seu filho sai de casa”.

Após a marcha repleta de atividades, Porto Alegre seguirá por muito tempo com as marcas deixadas pelas intervenções denunciando o genocídio da população negra. Com a organização da Marcha Zumbi dos Palmares Independente, Classista e de Luta – Contra o Racismo e Pela Reparação, a população negra avançou mais um importante passo rumo às conquistas desejadas e a cidade ficou mais próxima de realmente seguir o mesmo exemplo de liberdade dado em Palmares.

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